
Cachoeira
Rouquidão
da história
Texto
e fotos de Heitor e Silvia Reali

O RIO DIVIDE E ESPELHA AS DUAS CIDADES IRMÃS, UMA
EM CADA MARGEM – CACHOEIRA E SÃO FÉLIX.
É
de sopetão que invade o encantamento. Assim, zaap! A magia reside
na localização de Cachoeira, ponto fi nal das águas navegáveis
do rio Paraguaçu. Logo adiante ele vai cabriolar em cachoeiras,
fazendo jus ao nome do lugar. O rio divide e espelha as duas cidades
irmãs, uma em cada margem – Cachoeira e São Félix. O Paraguaçu
ainda duplica as colinas que envolvem os povoados. Estes foram
se espraiando lado a lado das águas ou se encarapitando nas encostas
de contornos suaves. Cachoeira situase no Recôncavo Baiano, a
116 quilômetros de Salvador. Os índios foram os primeiros a sentir
a energia do lugar. Os colonizadores mandaram os índios para os
quintos e se apoderaram daquelas terras, ideais para o cultivo
da cana-deaçúcar. Riachos próximos serviam para trazer a cana
da roça para os engenhos, e de lá o açúcar chegava com rapidez
a Salvador pelo Paraguaçu. Assim surgiu a aldeota que em pouco
tempo foi elevada a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto
da Cachoeira de Paraguaçu.
Nos
séculos 18 e 19, graças à sua excelente posição, a cidade foi
uma espécie de empório para todo o Recôncavo. De suas margens
partiam barcos lotados de produtos da região, como fumo, açúcar
e couro, além do ouro em pó e do algodão de Minas. Cachoeira se
embelezou. Em um documento de 1810, lê-se: “A vila cresceu a um
ponto tal que não será fácil encontrar-se outra, em todo reino
do Brasil, que a iguale em comércio, riqueza e população”.
Acervo
único

NA IGREJA DO CARMO, ORNAMENTOS DOURADOS,
MOTIVOS ORIENTAIS E ESCULTURAS FORMAM CONJUNTO ÚNICO DO ACERVO
BRASILEIRO.
O
convento e a igreja do Carmo foram erguidos em 1773, tanto para
servir seus moradores, quanto para evangelizar os índios e acolher
os “devotos pretos”. Sua imponente fachada em estilo barroco possui
acabamentos como tocheiros e “cristado de chamas” em estilo rococó.
O conjunto abrigou a Irmandade do Senhor da Paciência e batalhões
de voluntários da Pátria, em trânsito para a Guerra do Paraguai.
Já a Ordem Terceira do Carmo era uma associação religiosa de leigos
que praticavam atos de caridade. Mas somente pessoas de “qualidade
comprovada” podiam pertencer a ela. Em seu interior, um extraordinário
labirinto de ornatos dourados recobre o altar-mor. Na sacristia
existe ainda um singular armário, todo pintado com motivos orientais,
que abriga esculturas da Paixão de Cristo. As imagens em madeira
policromada, que retratam o sofrimento do Senhor, possuem rostos
com olhos puxados. São tidas como únicas no acervo sacro brasileiro.
Espanto
merecido
Por
toda a cidade pontilham imponentes sobrados residenciais, a Casa
de Câmara, a cadeia e um pelourinho. Por todo esse esplendor,
Pedro I se referia à cidade como a “Nobre Cidade do Paraguaçu”.
Atendendo aos apelos do povo, conta-se que o imperador deu um
jeito para que uma ponte de ferro fabricada na InGlaterra, e pronta
para seguir para o Nilo, fosse desviada para Cachoeira, pondo
fi m aos desastres que ocorriam em épocas de cheias do rio. Apesar
de generoso, o Paraguaçu quase destruiu a cidade, com suas enchentes
que ocasionavam ainda cólera e febre amarela. Em 1980 fi nalmente
começou a ser construída uma barragem. Mas o fator decisivo da
decadência de Cachoeira foi a abertura de rodovias, deixando o
porto em segundo plano. Trate de se espantar caso esteja ouvindo
falar pela primeira vez dessa cidade. Tombada em 1971 pelo Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ela é tida
como o segundo maior conjunto arquitetônico e histórico preservado
do Brasil, depois apenas de Ouro Preto. Com a criação da Universidade
do Recôncavo, que ocupará as antigas instalações da Fábrica de
Charutos Leite Alves, Cachoeira espera ver renascer seu espírito
cultural. E novamente será muito difícil “encontrar outra que
a iguale em todo o reino do Brasil”.
CACHOEIRA
TEM MAIS
Capela
Nossa Senhora da Ajuda
A
ermida, que foi a primeira construção de cal e pedra de Cachoeira,
possui características medievais. Em sua entrada, um inusitado
alpendre apoiado em colunas. Durante as recentes obras de restauro,
foram encontrados vestígios de pinturas sobre pedras, uma raridade
encoberta por camadas de tinta a óleo.
Casa
de Ana Nery
Ana
Justina Ferreira Nery, a heroína baiana que serviu como enfermeira
na Guerra do Paraguai, nasceu em 1814 em um belo sobrado de esquina,
que em breve servirá de sede para seu memorial. Ele tem uma característica
que o diferencia das outras edifi cações da cidade: o andar tErreo,
geralmente utilizado para o comércio, era ocupado como residência,
com dois acessos independentes
Companhia
Brasileira de Charutos Dannemann
Localizada
de frente para as águas do rio Paraguaçu, na cidade de São Félix,
a fábrica conserva suas amplas instalações, onde ainda hoje dezenas
de mulheres enrolam a mão, com zelo e delicadeza, os charutos
e cigarrilhas feitos com fumo brasileiro, de excelente reputação
no mercado europeu. O imóvel também abriga o Centro Cultural Dannemann,
que apóia e divulga artistas locais.
Preste
Atenção

Signifi
cativas edifi cações de Cachoeira já foram restauradas pelo Programa
Monumenta, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
No entanto, ainda resta muito trabalho a ser feito. Ao todo, são
cerca de 1.200 imóveis tombados. Vale caminhar pelas ruas e reparar
nos detalhes arquitetônicos dos imóveis enegrecidos pela umidade.
Muitos estão em ruínas, como os casarões do Quarteirão Leite Alves,
onde será instalada a Universidade do Recôncavo e o Cineteatro.
Não
deixe de ver

Estando
na região, não dá para não visitar a Fundação Hansen Bahia. Karl
Heinz Hansen nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 1915. Foi marinheiro,
escultor e combatente na Segunda Guerra Mundial. Chegou à Bahia
em 1955, terra em que fez renascer o artista que as lembranças
da guerra quase mataram. Como prova dessa aliança, a uniu a seu
nome para sempre: Hansen Bahia. No alto da ladeira de Santa Bárbara,
sombreada por centenárias mangueiras, se localiza sua casa/ateliê,
com prensas, objetos pessoais e o acervo de 13 mil xilogravuras,
doados pelo artista a São Félix e a Cachoeira. Entre as gravuras
com múltiplos grafi smos, se destaca a série de cangaceiros, unidos
como unha e carne a seus cavalos, que lembram delgados centauros.
Prata
da Casa
Aiyê
Orun

UNIFORMIZADAS, AS MULHERES HOMENAGEIAM NOSSA SENHORA
DA BOA MORTE.
A
Irmandade da Boa Morte, uma das mais ricas manifestações culturais
do País, reúne religião, música e culinária. Era uma sociedade
secreta, fundada por mulheres negras em 1820. Provavelmente foi
a primeira agremiação feminista do Brasil. A festa da Nossa Senhora
da Boa Morte, que remonta 200 anos, é uma cerimônia em que se
fundem história e magia. Muitos de seus princípios permanecem
imutáveis, como o de somente participarem da confraria mulheres
descendentes de escravas e com mais de 40 anos. O culto a Nossa
Senhora da Boa Morte, no qual se realiza o enterro da Virgem,
era uma devoção dos portugueses, apropriada pelos escravos africanos.
Era uma forma de esconder o movimento abolicionista criado por
mucamas alforriadas, conhecidas como negras do partido alto. Elas
vendiam quitutes nas ruas para comprar a carta de alforria de
seus fi lhos, irmãos e maridos, além de dar proteção aos fugitivos.
A celebração, composta de procissões, missas, vigílias noturnas,
ceias e samba-de-roda, é realizada desde o início do movimento
abolicionista. Todo dia 13 de agosto, em Cachoeira, tem início
um cortejo que anuncia a morte de Maria. As irmãs se vestem de
branco – símbolo de luto na cultura africana – e usam contas singelas.
Mais tarde, oferecem a Ceia Branca, composta de pão, vinho e peixe.
No dia seguinte, vão às ruas anunciar o enterro. Usam suas melhores
roupas: saias rodadas e, nos ombros, carregam panos conhecidos
como da costa ou beca – em cada face, uma cor: vermelho e preto.
Na cabeça, um lenço e, sobre ele, o bioco, que é para lembrar
os negros da religião muçulmana. Nos pés, calçam uma espécie de
chinelo, os chagrins. No dia 15 uma alvorada de fogos anuncia
a Ascensão de Nossa Senhora ao céu. As irmãs se vestem com toda
pompa. Usam muitos e longos colares, anéis e pulseiras. E tratam
de oferecer uma feijoada, lembrança da comida dos negros nas senzalas.
No dia 16, tem cozido e sambade- roda. E para fi nalizar, no último
dia de festa se aplaca a fome com caruru, feito com quiabo, camarão,
gengibre, castanha e muito azeite de dendê. No encerramento da
festa, as irmãs se recolhem em uma cerimônia privativa. Ao preservar
a cultura dos ancestrais, estabelecem o elo entre Orun (o céu)
e Aiyê (a terra).
SERVIÇO
Como
chegar
A
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cidades brasileiras. Confira em www.tam.com.br
Onde
ficar
Pousada
Paraguaçu Localizada na margem do rio, em São Félix.
Tel.: (75) 3438-3369. Pousada La Barca Localizada
num casarão histórico em Cachoeira. Tel.: (75) 3425-1070.
Onde
comer
Restaurante
Rabuni A comida é servida em sistema de buffet. O lucro
mantém a creche de Cachoeira. Tel.: (75) 3425-3178. Restaurante
Ferroviário Localizado em São Félix, ao lado da Igreja
dos Passos, serve pratos da culinária baiana, como maniçoba, feijoada
e moqueca.