Veneza tropical, com praças e parques, pontes sobre canais, monumentos do tempo da invasão holandesa, museus. Cultura ímpar nesses brasis. E ainda tem praias de águas sempre mornas, bailes e festas o ano todo.
Crônica, conto, crítica, romance, folhetim, peça de teatro. Poucos escritores foram tão versáteis, poucos conseguiram traduzir de maneira tão original o Brasil e os brasileiros.
Prédios antigos, que guardam memórias do início do século 20, hoje abrigam exposições de artistas contemporâneos ou retrospectivas da história brasileira. Nos Centros Culturais Correios, a história se encontra com a arte.
Em 7 de novembro de 1825, o tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão lançou novidade no Recife: um jornal diário de anúncios. Na Introdução, apregoava a falta que fazia “nesta cidade assaz populosa um diário de anúncios, por meio do qual se facilitassem as transações e se comunicassem ao público notícias”. Seu nome: Diário de Pernambuco, o mais antigo em circulação na América Latina, vigésimo no mundo.
Há em Pernambuco uma música e uma dança que nenhuma terra tem. É o frevo, que toma as ruas de Recife e Olinda e faz a multidão ferver, ou frever - daí o nome, corruptela tão popular. É preciso fôlego para trançar as pernas em passos tão diversos. É tanta energia que nem parece: esse pernambucano arretado está fazendo 100 anos. E o melhor: na festa, há lugar para modernidade e tradição, sem rixas ou competições.
Quem decide atravessar as inúmeras pontes de Recife não se arrepende. Dos guetos ao centro, há histórias para se esbaldar. A cidade que serviu de morada para gente como Paulo Freire, João Cabral, Chico Science e Joaquim Nabuco não pára de ver nascer mais cultura de seus casarões e manguezais.
Solano Trindade foi poeta, ator, teatrólogo, animador cultural. Filho de sapateiro e doméstica, nasceu no Recife a 24 de julho de 1908. Cedo tomou contato com manifestações populares e o movimento negro.
Em 1817, quase cinco anos antes do grito do Ipiranga e 70 do fim da monarquia, Pernambuco tornou-se uma república independente. O movimento republicano estourou com 200 soldados e logo agregou milicianos de todos os cantos, numa mistura de uniformes. Depois de libertar conspiradores da cadeia, a primeira missão era conquistar o prédio do Erário do Recife – o cofre do governo.
O povo aguardava tanto a chegada do “grande navio aéreo” que o prefeito do Recife declarou feriado no 22 de maio de 1930. O governador Estácio Coimbra baixou decreto que regulamentava até o “tráfego de veículos e pedestres” durante o acontecimento.
Recife, 23 de janeiro de 1825. O carrasco se nega a enforcar o condenado, um frei: alega que viu a Virgem Maria ao lado dele. O ajudante se esquiva e também dois escravos, mesmo a chibatadas. Prometem liberdade a dois presos em troca de enforcar o frei. Não aceitam. Decidem pelo fuzilamento. Os soldados tremem. O condenado diz: “Vamos, meus amigos. Não me façam sofrer muito. Virgem Maria há de compreender os vossos temores. Tenham fé. Ela já os perdoou.”