Cesteiro que faz um cesto faz um cento
Lá por 1950, em Campos, Rio de Janeiro, uma fazenda de cana emendava na outra. Atraíam nordestinos que chegavam em paus-de-arara. Clemente e Lonildo eram amigos desde criança. A avó de Clemente reprovava a amizade:
- Cuidado com o Lonildo. Cesteiro que faz um cesto faz um cento.
Lonildo mandou buscar o pai (já não tinha mãe) e a mulher. O patrão tinha capatazes violentos. E uma mania: colecionava rabos de cachorro. Aos domingos, na porta da venda, enchia a cara e provocava os empregados. Pegou o cachorro de Lonildo:
- Olha aqui, paraíba, o que faço com o teu lulu.
Quando o patrão a soltou, Nanci saiu pulando, dando voltas, mordendo o coto sangrento:
- Eu preferia mesmo era cortar rabos de crioulos - disse para Clemente, que espiava.
Na madrugada gelada daquele dia, a mulher de Lonildo o despertará assustada: seu velho pai não está na cama. Lonildo sai para procurá-lo, vai à cabana de um, de outro, desiste. Na escuridão, vem até eles o grunhir dos porcos de engorda. Quem podia ajudá-lo senão Clemente, pau pra toda obra? Chegaram ao chiqueiro:
- Venha cá depressa - chamou Lonildo.
Pouco a pouco foram distinguindo lá dentro a massa agitada dos porcos pretos de engorda. Mordiam-se e rosnavam como uma matilha de lobos sobre um coelho morto.
- Parece o seu pai - disse Clemente.
O rosto, o pescoço e o estômago do velho haviam sido completamente devorados. Foram acordar o patrão:
- Ele recebia rações de fome, como todo mundo que trabalha para o senhor - disse Clemente. - E estava tão velho que não sabia onde procurar comida a não ser no fumeiro. O senhor sabe muito bem que foi assim que ele se perdeu na escuridão e caiu no chiqueiro.
O homem não admitia desaforo de peão. Os dois se enfrentam, armados de aguilhões. O patrão volta à casa para buscar a espingarda e convocar os amigos. A salvação de Clemente é se esconder num bosquezinho, até que cansem de procurá- lo. É sua única chance. Lonildo propõe que ele dê o fora de vez. Mas como ia deixar a família? Clemente lhe pede, então, uma pequena ajuda: quando chegarem os justiçadores, Lonildo dirá que fugiu na direção contrária, a do pântano.
Quando chega, o patrão lhe aperta o pescoço:
- Cadê aquele crioulo?
Lonildo aponta para o pequeno bosque onde fica o riacho. O pântano era na direção oposta:
- Ele disse que ia se esconder naquele bosquezinho junto do riacho, patrãozinho. Acho que ele está lá agora.
Lonildo volta pra casa. Sua mulher ainda não sabia da desgraça:
- Seu pai acaba voltando. Por que não aproveita e pede ao patrão um pedacinho de carne para o almoço?
Quanto a Clemente, quando viu chegar o bando armado, pensou: “Vó tinha razão. Cesteiro que faz um cesto faz um cento”.
E antes que reclamem: isto é adaptação do conto Covardia, de Erskine Caldwell.



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