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Luiz Gonzaga E-mail
Escrito por redação   

Cimento da nacionalidade

Com a sanfona, acompanhada de zabumba e triângulo, vestido de cangaceiro, ele encheu os ares do País de sons e cantos de sua terra, nossa terra. Através da música, alegrou, fez pensar, protestou, ajudou a educar o povo de norte a sul e a consolidar a nacionalidade.

O pai de Luiz, o camponês Ja­nu­á­rio dos Santos, fugindo da seca, chegou no iní­cio do sé­cu­lo 20 à chapada do Ara­ri­pe, perto da cidade per­nam­bu­ca­na de Exu. Por ale­grar as festas com sua san­fo­na e ser peão de mo­dos se­re­nos, caiu nas gra­ças de San­ta­na, a mocinha mais bo­ni­ta das re­don­de­zas.

Luiz, segundo filho de Ja­nu­á­rio e San­ta­na, nasceu a 13 de de­zem­bro de 1912. Um meteorito ris­cou o céu; o pai socou tanta pól­vo­ra no ba­ca­mar­te, que o tiro de festejo estourou o cano. Luiz foi o úni­co de nove ir­mãos batizado sem o San­tos do pai: o pa­dre pôs o so­bre­no­me de São Luís Gonzaga e acrescen­tou Nas­ci­men­to, por ser mês da vinda de Cristo ao mun­do: Luiz Gon­za­ga do Nas­ci­men­to.

Aos dez anos, o menino já revezava no fole com o pai. Mocinho, apai­xo­na-se pela fi­lha de um figurão, con­trá­rio ao namoro. Luiz de­sa­ca­ta o homem e leva uma surra da mãe. Envergonhado, foge e alista-se no Exér­ci­to. Com o Golpe de 1930, aca­ba trans­fe­ri­do para o Rio, onde dá baixa nove anos depois. Passa a to­car em bares noturnos, re­co­lhen­do di­nhei­ri­nho em pi­res.


Nasce o Rei do Baião
Ary Barroso tinha programa de ca­lou­ros. Luiz ia lá, tocava uma valsa vi­e­nen­se, ga­nha­va nota 3 – a maior nota era 5. Não passava de mú­si­co obs­cu­ro, perdido nas noites. Um grupo de estudantes cearenses o provocou num bar: “Toca alguma coisa da tua terra.” Pas­sou a ma­dru­ga­da sen­ta­do na cama, rein­ven­tan­do músicas en­si­na­das por Ja­nu­á­rio. Vol­tou ao pro­gra­ma de Ary e apre­sen­tou a com­po­si­ção Vira e Mexe. A plateia explodiu e o júri anun­ciou: “Gonzaga, nota 5!”

O baião entrou para a música eru­di­ta, vi­rou trilha de filmes, ganhou mundo. A sa­ca­da de Gonzaga foi pen­sar: tem o tipo gaúcho, o pau­lis­ta, o mineiro; por que não o nor­des­ti­no? Pôs zabumba e triângulo junto com a san­fo­na, vestiu-se de can­ga­cei­ro. O sucesso pe­gou feito chama em ras­ti­lho de pólvora. Nada mais universal do que o regional. O que é o baião?

De novo um cearense na história: o ad­vo­ga­do e compositor Hum­ber­to Teixeira, que Luiz conheceu em 1945. Eles com­pu­se­ram Baião, lan­çan­do o ritmo sincopado vindo “de baixo do barro do chão”, como can­ta­ria Gil­ber­to Gil. Era como um ma­ni­fes­to de nova era na música po­pu­lar brasileira. Pro­cla­ma­do Rei do Baião em 1950, rei­nou até 1955.


A volta da Asa Branca
Vem a industrialização, a bos­sa nova. Luiz perde prestígio. Mas havia per­cor­ri­do, em car­ne e osso, pra­ti­ca­men­te to­das as ci­da­des brasileiras com mais de 400 ha­bi­tan­tes. Sua música im­preg­nou a alma do povo: o ma­li­ci­o­so cha­me­go; o can­ga­cei­ro xa­xa­do; o pro­vo­can­te for­ró; o xote, sapeca e con­vi­da­ti­vo ao dan­çar agar­ra­di­nho; a toada ro­mân­ti­ca; o la­men­to­so aboio; e o imortal baião. As le­tras ce­le­bram toda for­ma de amor, o res­pei­to aos mais velhos, às cri­an­ças, aos bichos, à na­tu­re­za, à dig­ni­da­de hu­ma­na.

Tal como em A Volta da Asa Bran­ca, fa­mo­sa parceria com Zé Dantas, Luiz vol­ta­ria a bri­lhar mais de uma dé­ca­da de­pois, gra­ças a Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os bai­a­nos, expoentes do Tro­pi­ca­lis­mo (1968), gra­va­ram Luiz e declararam que vi­nha dele a prin­ci­pal influência sobre sua obra. Já Luiz di­zia, sem­pre, que devia tudo ao pai; e ao povo. Até mandou incrustar na san­fo­na os dizeres: É do povo.

“Fui um sanfoneiro que lutou pelo seu povo e foi feliz com isso”, disse pouco antes da morte, aos 76 anos, de pneumonia, num hos­pi­tal do Recife. Quinhentas pessoas acom­pa­nha­ram o cor­po rumo ao ve­ló­rio, aplau­din­do e gritando seu nome. Tom Jo­bim dis­se:

“Era um revolucionário.”

O político do Nordeste Miguel Ar­ra­es diz que “o nordestino é o ci­men­to da na­ci­o­na­li­da­de”. A marca Luiz Gon­za­ga é das melhores que já apa­re­ce­ram deste cimento. Deixou filho cantor e compositor, o Gon­za­gui­nha, morto um ano e meio depois do pai.
 

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