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O arquiteto faz 100 anos E-mail
Escrito por Rafael Capanema   

O gênio maior da nossa arquitetura completa um século de vida em 2007. Nos últimos 70 anos, ele tem se dedicado a construir a identidade nacional por meio de suas instigantes obras. Acumula centenas de projetos, espalhados em cinco continentes: casas, escolas, igrejas, hotéis, hospitais, museus, universidades, estádios, aeroportos, monumentos. “De um traço nasce a arquitetura. E quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte.”

Após completar 100 anos, Oscar Niemeyer segue trabalhando todos os dias diante da prancheta de seu escritório, em Copacabana. Nasceu no mesmo Rio, no bairro de Laranjeiras, em uma rua bastante íngreme, mas que não o impedia de disputar peladas com a molecada da vizinhança. O menino levava jeito. Habilidoso, chegou até a jogar no juvenil do Fluminense.

Formou-se engenheiro-arquiteto em 1934. Passou a trabalhar no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão, onde ajudou a projetar, em 1936, o prédio do Ministério da Educação e Saúde. Baseado em conceitos do arquiteto francês Le Corbusier, o edifício é considerado um marco da arquitetura contemporânea. Com 14 andares, tem painéis de azulejos desenhados por Cândido Portinari, jardins projetados por Burle Marx e obras de arte ao ar livre.

O primeiro trabalho individual foi o Complexo da Pampulha, em Belo Horizonte. A convite do prefeito da capital mineira, Juscelino Kubitschek, projetou o conjunto aproveitando as propriedades estruturais do concreto armado para dar formas sinuosas às construções. “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo.”


Sonho e poesia
Em 1947, é convidado para projetar, ao lado de arquitetos do mundo todo, a sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque. Quatro anos depois, começa a desenvolver duas obras monumentais em São Paulo: o Parque do Ibirapuera e o edifício Copan. Mas o projeto mais ambicioso ainda estava por vir. Eleito presidente em 1955, JK anuncia a transferência da capital do País para o Planalto Central e abre concurso para eleger o projeto para o plano-piloto de Brasília. O vencedor é Lúcio Costa. Niemeyer, amigo e antigo funcionário, é encarregado dos projetos dos prédios.

Havia pouquíssimo tempo para entregar a cidade, que seria inaugurada, impreterivelmente, em 21 de abril de 1960, Dia de Tiradentes. Mas o prazo apertado não impediu Niemeyer de trabalhar com ampla autonomia. Sem se subordinar às razões da técnica ou da funcionalidade, teve liberdade quase que irrestrita, o que possibilitou uma “atmosfera de êxtase, sonho e poesia”, como define. “Procurei formas que não se apoiassem no chão, rígidas e estáticas, como uma imposição da técnica, mas que manifestassem os palácios como que suspensos, leves e brancos nas noites sem fim do Planalto.”

Em uma tacada só, ergueu uma série de prédios que rompiam com os padrões arquitetônicos: o Congresso Nacional, com as duas grandes cúpulas contrastantes; o Palácio da Alvorada e suas colunas de mármore; os pilares da Catedral, que remetem à coroa de espinhos de Cristo. Marco do urbanismo mundial, a cidade foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1987.


O homem não para
Filiado a partir de 1945 ao Partido Comunista, do qual se desligou em 1990, Niemeyer teve problemas com os militares durante os Anos de Chumbo (1964-1985). Seu escritório foi saqueado e o da revista Módulo, que dirigia, quase destruído. Seus projetos começavam a ser recusados. “Lugar de arquiteto comunista é em Moscou”, declarou à imprensa o Ministro da Aeronáutica. Impedido de trabalhar no Brasil, exilou-se em Paris. Uma série de projetos no exterior se sucederam, como a sede da Editora Mondadori, na Itália; a Universidade de Constantine, na Argélia; o Centro Cultural de Le Havre, na França.

Só voltou ao Brasil em 1980, com a Anistia. No mesmo ano, projetou o Memorial JK, em Brasília. E, nove anos depois, o Memorial da América Latina. Na década de 1990, mais projetos geniais: o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, em 1991, apelidado de “disco voador”, e a sede da Ordem dos Advogados do Brasil, em Brasília, de 1998.

E não para. No ano de seu centenário, trabahou na planificação de um balneário em Potsdam, na Alemanha, e no novo centro administrativo do governo de Minas Gerais.

Doutor Oscar, como é carinhosamente chamado pelos admiradores, chega aos 100 anos em 15 de dezembro de 2007 com lucidez e irreverência invejáveis. Em entrevista à revista Caros Amigos de julho de 2006, perguntaram-lhe: “De onde o senhor tira tanta energia para o trabalho?”. A resposta: “Ah, não tem energia nenhuma. Eu faço projeto sentado”.


Obras imperdíveis
Dos mais belos projetos de Niemeyer, selecionamos oito, abrangendo desde os desde os primórdios da carreira até os dias atuais.

Igreja de São Francisco de Assis (1940)
Belo Horizonte (MG)

A igreja é um dos destaques do Conjunto da Pampulha: “Era um protesto que eu levava como arquiteto, de cobrir a igreja de curvas, das curvas mais variadas, essa intenção de contestar a arquitetura retilínea que então predominava”. Burle Marx desenhou os jardins. Os baixos-relevos em bronze do batistério foram esculpidos por Alfredo Ceschiatti. Por sua forma não ortodoxa e pelo mural moderno pintado por Portinari, as autoridades eclesiásticas não autorizaram a consagração da igreja. Cultos só passaram a ser celebrados a partir dos anos 1960.

Edifício Copan (1951)
Sao Paulo (SP)
Localizado na região central, é um dos projetos de Niemeyer para as comemorações do quarto centenário da cidade, celebrado em 1954. Nos 1.160 apartamentos, divididos em seis blocos e 37 andares, vivem hoje cerca de 5 mil pessoas. É a maior estrutura de concreto armado do País.

Congresso Nacional (1958)
Brasília (DF)

Dos prédios projetados por Niemeyer na Praça dos Três Poderes, o do Congresso é o seu preferido. “Quando alguém vai a Brasília eu pergunto se viu o Congresso Nacional, e pergunto depois se gostou, se achou que o projeto era bom. Certo de que ela podia ter gostado ou não, mas nunca podia dizer que tinha visto antes coisa parecida.”

Catedral Metropolitana (1958)
Brasília (DF)

O interior da igreja recebe luz natural pelos vitrais pintados por Marianne Peretti. A Via Sacra é de Di Cavalcanti; os azulejos no batistério, de Athos Bulcão. “Evitei as soluções usuais das velhas catedrais escuras, lembrando pecado. Ao contrário: fiz escura a galeria de acesso à nave, e esta, toda iluminada, colorida, voltada com seus belos vitrais transparentes para os espaços infinitos.”

Editora Mondadori (1968)
Milão (Itália)

Na fachada da editora, Niemeyer buscou manter um jogo harmonioso de volumes e espaços livres. “Fiz as colunas variando o vão: vão de 15 metros, de 3 metros, de 5 metros, de 6 metros. Era uma ideia que me ocorreu, uma ideia ‘musical’, vamos dizer.” O arquiteto italiano que trabalhou no projeto não gostou da ousadia. Quis fazer colunas de 8 em 8 metros, mas a criação de Niemeyer prevaleceu.

Sede do Partido Comunista Francês (1967)
Paris (França)

Niemeyer levou apenas três dias para desenhar a planta do edifício. “Minha preocupação foi guardar no térreo o equilíbrio desejado entre volumes e espaços livres. Meu intuito era marcar um princípio importante da arquitetura, que, pela Europa, nem sempre era bem entendido.” Na França, os refeitórios dos assalariados costumam ser localizados no subsolo dos imóveis. Niemeyer fez diferente: instalou o refeitório no último andar, para que os trabalhadores pudessem aproveitar a luz natural e a vista de Paris. O prédio abrigará neste ano uma exposição em homenagem ao centenário do arquiteto.

Centro Cultural de Le Havre (1972)
Le Havre (França)

Projeto tombado como patrimônio histórico pela Unesco. Niemeyer chegou ao local, localizado à beira do mar, e disse ao prefeito que, para proteger a praça do frio e dos ventos, queria afundá-la 4 metros. Apesar de espantado, o dirigente autorizou. “Você anda pela calçada e está vendo a praça embaixo”, explica Niemeyer. “Você é convidado a descer porque tem um teatro dentro dela, o sujeito desce e vê a praça. Essa característica a faz diferente de todas as outras da Europa.”

Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991)
Niterói (RJ)

“A arquitetura tem que ser fácil de explicar. Quando cheguei ao espaço destinado ao museu, vi a paisagem, e o mar defronte. Aí, as montanhas do Rio. Uma paisagem que eu tinha de preservar. Então subi o prédio, mantive a paisagem, com o museu solto no ar.”

Museu Oscar Niemeyer (2002)
Curitiba (PR)

Niemeyer projetou em 1967 o edifício, que inicialmente abrigaria um instituto de educação. O prédio, no entanto, acabou sendo usado como sede de secretarias e outros órgãos administrativos do Paraná. Em 2001, o governo do Estado resolveu transformar o complexo em um museu, convidando o arquiteto para desenhar um novo anexo, que ficou conhecido popularmente como Olho. “Lá está o museu a surpreender a todos que passam. Uma arquitetura que foge a tudo que viram antes. Toda feita de audácia, de técnica e de fantasia.”


SAIBA MAIS
Oscar Niemeyer, de Ricardo Ohtake (Publifolha, 2007)
Oscar Niemeyer - A vida é um sopro, filme de Fabiano Maciel
Site oficial: www.niemeyer.org.br.
 

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