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109 - Maio de 2008
THIAGO
DE MELLO O
animal mais ilustre que a natureza criou se transformou num grande
desumano

Ele
é um dos mais respeitados poetas da atualidade, com obras traduzidas
para 30 línguas. Exilado durante o regime militar (1964-1985), morou
no Chile, Argentina, Portugal, França e Alemanha. De volta ao Brasil,
escolheu a cidade em que nasceu, encravada no meio da fl oresta
amazônica, para viver. “Em vez de ir estudar em Oxford, decidi morar
em Barreirinhas”, diz. “Não estou lá para ensinar, mas para aprender
com a própria fl oresta e, sobretudo, com o homem que vive nela
e vive dela”. Autor de cinco livros dedicados à preservação da região,
entre eles o recém-lançado Amazonas, Pátria da Água (Gaia/Boccato,
2008), Thiago não mede palavras para condenar a ação nociva do homem
sobre a natureza. Aos 82 anos, conclama cada um a fazer sua parte:
“É preciso trabalhar pelas crianças que ainda vão nascer”.
Para
você, que vive no meio da fl oresta, qual é a gravidade da situação
da Amazônia?
A comunidade
científi ca internacional, muito especialmente o organismo chamado
Painel Internacional de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, em
seu terceiro relatório, adverte não só os poderosos que se pretendem
donos do mundo, mas também cada pessoa fi lha da Terra a fazer sua
parte. No dia 13 de março caiu uma geleira, uma imensa plataforma
de 20 quilômetros, na Antártica. Parecia eterna e desabou. O mesmo
calor que derrete o Kilimanjaro e as neves que pareciam eternas
na Cordilheira dos Andes ameaça cruelmente a vida da fl oresta amazônica.
Minha preocupação não é só em relação à fl oresta, o maior manancial
de vida do planeta, tão cruelmente devastada e degradada pelos madeireiros
perversos, pelos empresários opulentos, pelos criadores de gado
e soja. É também em relação à própria existência do ser humano.
É possível
imaginar uma boa saída para isso?
Há
tempos eu fi z uma opção entre a utopia e o apocalipse. Optei pela
utopia. Há aQueles que se satisfazem com a degradação, com a devastação,
com a morte, com a ruína. A fl oresta é um ser vivo que o próprio
planeta respira. Com lástima e perplexidade eu cito como exemplo
a posição do País mais poderoso do planeta, os Estados Unidos. Eu
trago grande perplexidade com a obstinação daquele país tão poderoso
em se manter na indiferença com o resultado da emissão de gases
tóxicos, como o gás carbônico, o etano, o óxido nitroso. E os cientistas
há tempos vêm alertando. Primeiro foi o efeito estufa, as chuvas
ácidas. Depois veio a abertura da camada de ozônio. A natureza é
tão boa conosco! É preciso trabalhar pelas crianças que ainda vão
nascer. A comunidade científi ca mundial avisa, com comprovação
objetiva da realidade, que o aumento da temperatura chegou a um
grau irreversível. Isso vai causando seus efeitos ao longo deste
século, que termina com a desgraça do próprio planeta e dos seres
que vivem nele.

Como
você defi ne sua escolha pela utopia?
A minha posição
é de esperança. Acho que o sonho e a utopia devem ter os pés e todo
o corpo fi ncados na realidade. Mas eu tenho a esperança de que,
a cada dia, o maior número de pessoas se conscientize de que é preciso
fazer a sua parte. Tenho cinco livros em prosa e verso sobre a preservação
da fl oresta amazônica. Eu falo de preservar a vida. Nos anos 1970,
estive exilado na Europa. Eu nasci na fl oresta, sou fi lho da fl
oresta. Mas durante muitos anos, como escritor e diplomata, vivi
longe de lá. Meus alunos de literatura latino-americana e professores
das universidades, tanto da França quanto da Alemanha, sabiam muito
mais do que eu, que sempre estudei sobre a fl oresta. Eles tinham
os dados de satélite, sabiam o número de hectares devastados, do
genocídio dos índios, dos problemas de terra. Eu, então, em vez
de ir estudar em Oxford, decidi morar na terra onde nasci e onde
estou até hoje, há cerca de 30 anos. Eu não vou lá para eNsinar,
mas para aprender com a própria fl oresta e, sobretudo, com o homem
que vive nela e vive dela, o chamado ribeirinho, que mora à beira
do rio mais caudaloso e mais extenso do planeta, que dá vida à floresta.
Qual
deve ser o papel do governo na luta pela preservação?
Eu consagro
minha vida a causas muito difíceis. A principal é a construção de
uma sociedade solidária. Ou seja, a eliminação cada dia mais extensa
e intensa das grandes diferenças sociais, da terrível desigualdade
que existe entre uma minoria de poderosos que têm tudo e querem
ter cada dia mais, e uma legião de deserdados, os chamados miseráveis,
que nada têm nem podem ter. Eu não vou fazer nesse momento nenhuma
referência ao que me consterna muito, que é a concessão de bolsas
pelo governo. Mas o governo do Brasil tem que, em primeiro lugar,
tomar medidas muito completas através do Ministério do Meio Ambiente,
entregue a uma mulher extraordinária, minha querida amiga Marina
Silva, com todo o ardor, vigor e alta consciência que ela tem da
necessidade de preservar esta fl oresta. A verdade é que cada dia
mais os poderosos, os grandes empresários, além da cobiça internacional
que tradicionalmente existe sobre o verde amazônico, aumentam a
devastação.Como se o boi e a soja fossem mais importantes do que
o ser humano e a grande biodiversidade da fl oresta. Cada árvore
que cai é uma grande quantidade de vida que se extingue. O pior
é que, com a fl oresta desabada e queimada, acabam as riquezas e
virtudes de vegetais que nem sequer foram estudados ainda. Nosso
povo precisa se conscientizar de que pode e deve a cada dia fazer
sua parte.
E o
que se pode fazer?
Tudo
que é consumo de energia vem dos combustíveis fósseis: petróleo,
gás natural, carvão mineral. A queima desses combustíveis produz
esses gases todos e gera energia. Então, se tu desperdiças a água,
deixa a luz acesa na sua casa, gasta gás em excesso, estás gastando
energia. Mas vai chegar um momento, eu tenho certeza, em que todos
os países vão economizar, vão plantar mais árvores. Na Suécia, estão
plantando muito mais árvores do que aqui. Com a Mata Atlântica já
acabaram, não tem mais nem 10% do que tinha. Como é que eu vou dizer
para São Paulo que é preciso reduzir o número de automóveis? Eu
soube que agora o rodízio pode ser duas vezes por semana. Já é uma
boa medida, está certo. Mas a cada vez aumenta o número de carros
que entram em São Paulo, assim como nas outras cidades do Brasil.
Eu tenho conversado com motoristas: “Você sabe que seu cano de descarga
está fazendo mal à vida das crianças? Está fazendo mal à vida daqueles
que já estão doentes? Está fazendo mal à própria respiração? O ar
que tu respiras está contaminado”. Eles dizem: “Ah, é nada”. É igual
os caboclos da fl oresta de onde eu vim. A região amazônica é a
menos consciente do grande perigo que a cada instante a fl oresta
está correndo. Quando eu advirto lá, eles dizem: “Essa mata não
acaba nunca, tem mata demais, Deus é grande”.
Ainda
é possível salvar a Amazônia?
Até uns cinco
anos atrás, aonde eu chegava para fazer palestra, conferência, congresso
ou recital, eu terminava dizendo: “Faça a sua parte para preservar
a fl oresta amazônica”. Hoje não é mais “preservar”, é salvar o
que pode ser salvo. Mas me perguntam: “Você é alarmista?”. Não.
Eu acredito na ciência. A ciência não mente, a ciência não brinca.
Um instante que me comoveu muito foi o anúncio do terceiro relatório
de simulações de mudança climática, na Inglaterra. O cientista Raymond
Bradley terminou de ler chorando. O cientista ama a vida também,
é gente como tu, como eu, como qualquer outro. O animal mais ilustre
que a natureza criou, o humano, se transformou num grande desumano,
cruel, feroz, que com gás, com fogo e com ingratidão devora a vida
da fl oresta. Fala-se
muito em consciência ambiental. É algo que veio para fi car ou uma
onda passageira?
Não pode ser
passageira. Ainda é tempo de fazer alguma coisa. Os governantes
são os principais responsáveis pelo esforço para que os povos de
cada país participem do trabalho. Mas é muito ruim, neste estágio
do processo civilizatório, com o avanço da ciência e da tecnologia,
que cada pessoa hoje queira ter seu carro. A quantidade de gás carbônico
que sai do cano de descarga do teu automóvel...
Você
tem carro?
Eu não tenho
carro; tenho canoa, tenho barco. O carro é um feroz inimigo da vida
do planeta. Mas eu tenho a esperança de que, no dia em que uma parcela
ponderável do povo se conscientizar das conseqüências do aquecimento
da Terra, que já estão acontecendo – as inundações, a elevação do
nível do mar, as grandes chuvas, os vulcões, as caídas das geleiras,
tudo isso –, algo vai mudar. Mas é preciso que haja um trabalho
conscientizador. Eu me empenho, como membro de um grupo chamado
Grupo de Estudos Estratégicos do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas
da Amazônia). Acontece que não é só a nossa fl oresta que sofre.
A questão é sobre a vida dos seres, a vida da humanidade. Em toda
a minha obra – quase 30 livros de verso e prosa –, eu escrevo sobre
a vida do ser humano. O maior prêmio que um escritor pode receber
é o apreço de leitores desconhecidos, que, com a leitura de uma
página de um livro ou de um poema, ganham força para acreditar na
beleza da vida, no milagre do amor e no respeito à beleza da própria
condição humana. A arte não deve apenas ter um objetivo estético,
deve ter também uma fi nalidade ética. Eu trato de fazer a minha
parte, com a minha palavra, escrita e falada.
É esse
o dever do escritor?
Eu
acho que o dever do escritor, seja com seu conto, seu poema, seu
romance, é servir à vida. No Brasil, se está perdendo cada vez mais
a ética. Há uma devastação da fl oresta, mas também uma devastação
de valores morais, com a violência, o desrespeito à vida humana.
As crianças é que são cada vez mais atingidas pelo desrespeito e
pelo desamor. Há uma grande crise de amor. Eu conheço companheiros
de 60, 70, 80 anos que são jovens, cheios de esperança, querendo
fazer coisas para mudar; assim como conheço universitários, colegas
de 25 anos, que já envelheceram, só pensam em enriquecer. Estamos
na vida para servir aos outros. Para isso, é necessário que o escritor
consiga cada vez mais uma linguagem acessível a um número maior
de pessoas. Não somente escrever para aqueles iniciados, que têm
curso de Literatura e de Letras na universidade. Vale o mesmo para
os cientistas, que não devem somente escrever com suas terminologias
complicadas. Todos nós que usamos a palavra falada e escrita devemos
ter uma linguagem acessível, para que ela penetre e crie a consciência
de que caDa um pode fazer a sua parte.

Como
você defi ne sua atuação?
Eu me dedico
à construção de uma sociedade mais justa, limpa e solidária para
nós que vivemos nesta parte do planeta. Trabalho muito pelo que
chamo de integração cultural da América Latina. Sem que o povo conheça
a vida dos países da América Latina, jamais haverá uma integração
política e econômica verdadeira. Somos países que mal nos conhecemos.
Eu fui adido cultural da Embaixada do Brasil em três países da América
Latina. Como acho que a arte – no meu caso, a literatura, a poesia,
o romance, o conto, seja o que for – é um instrumento de comunicação
poderoso de aproximação, trato de fazer minha parte, traduzindo
escritores, particularmente poetas da América Latina. Entreguei
recentemente os originais da primeira antologia de poetas da América
Hispânica que vai sair no Brasil. É uma antologia pioneira. Se tu
vais a uma livraria procurar antologias de poesia francesa, inglesa
ou russa, eles te dão quatro, cinco de cada. Mas da América Latina
não há nenhuma. Eu mesmo já traduzi cinco livros de Pablo Neruda,
de quem fui grande amigo quando vivi no Chile, de Mário Benedeti,
de Jorge Luis Borges.
Você
segue fazendo caminhadas solitárias pela floresta, declamando Manuel
Bandeira e Joaquim Cardozo?
Quase todo dia
e quase toda noite também. Ainda ontem eu declamei para um grupo
de amigos o poema Última Canção do Beco, de Manuel Bandeira, de
quem mereci freqüentar a intimidade de sua ternura. Um deles me
pediu para lembrar um poema de Neruda, Puedo Escribir los Versos
Más Tristes Esta Noche. Eu disse a ele que queria dizer um poema
mais alegre, e não apenas lembrar as coisas tristes. Última Canção
do Beco é um dos poemas de amor mais belos que existem. Eu tive
um fi lho, a quem dei o nome de Manuel, o Manduca, meu querido fi
lho, compositor, músico, poeta, que morreu há três anos. Ele declamava
o poema para um beco onde morou, no Rio de Janeiro: “Beco das minhas
tristezas, das minhas perplexidades, mas também dos meus amores,
dos meus dons, és como a vida, que é santa apesar de todas as quedas”.
Com o beco ele aprendeu a amar a vida cada vez mais, e amar também
a tristeza humana. Termina aqui o dever e a missão de cada um que
chega à Terra. Cada criança nasce para ajudar a vida a ser mais
culta, a ser melhor.
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