CHARLES GAVIN
Um bom disco pode mudar a vida de uma pessoa
Foi pelo incômodo de ver uma série de discos que fizeram sua cabeça confinados nas prateleiras dos colecionadores que Charles Gavin levantou do banquinho da bateria dos Titãs. Fascinado pelas tecnologias de gravação, tomou posição frente às mesas de mixagem no fim dos anos 1990 e, de lá pra cá, promoveu o relançamento em CD de mais de 450 discos essenciais. “O problema é que boa parte já voltou a estar fora de catálogo”, lamenta. “Acabaram virando CDs raros…” Árduo batalhador pela preservação da nossa memória musical, Charles já não se limita a projetos na indústria fonográfica. Ataca com um programa de rádio na Eldorado FM de São Paulo, um programa de tevê no Canal Brasil e está prestes a lançar o primeiro filme: O Pirulito da Ciência – Tom Zé & Banda ao Vivo. “Ainda sou um iniciante, mas acho que tenho feito direitinho a lição de casa.”
Você sempre se interessou pelas tecnologias de gravação?
Eu tenho fascínio por tecnologia. Herdei do meu pai, que trabalhava nesse ramo, o gosto por relógios de pulso. Meu pai não apenas importava relógios da Suíça, mas também peças bastante específicas para consertar esses relógios – os mecanismos eram extremamente complexos. Ele tocava uma loja no centro de São Paulo, num tempo em que o centro era um lugar mais interessante. Era uma época em que esse tipo de relógio tinha muito valor. Até que chegou a tecnologia digital, que afetou a vida de todos – inclusive a do meu pai. O mercado de relógios foi se transformando, chegaram os digitais, mais baratos, fabricados na Ásia, e as peças e os relógios que meu pai vendia, que eram praticamente objetos de arte, foram perdendo espaço. E ele teve que fechar a empresa. A tecnologia tem um lado democratizante e outro um tanto cruel…
Você acredita que a convivência entre o velho e o novo seja possível?
Acredito que Sim. No meu estúdio, por exemplo, tenho os mais modernos equipamentos e um monte de abajures retrô. Acho que as duas coisas convivem muito bem. A última filmadora digital convive pacificamente com uma de 35mm. Uma coisa não anula a outra. O trabalho de recuperação de discos que faço é um resgate de algo antigo para o mundo de hoje. Isso torna possível trazer uma gravação feita em condições precárias para a apreciação do público atual.
O que houve com os relógios aconteceu com os discos. Foi isso que te motivou à recuperação das antigas gravações?
Há várias razões. É interessante o fato de, apesar de fazerem basicamente a mesma coisa, o mecanismo de um relógio suíço da década de 1950 e o mecanismo de um relógio digital serem completamente diferentes. Eles fazem o mesmo, mas de formas totalmente distintas. O mesmo acontece com os processos de gravação. Desde que comecei a tocar, me interessei pelo processo de gravação, pela parte técnica. Tinha curiosidade de saber como eram os processos de gravação mais antigos. Comecei a estudar e foi inevitável constatar que temos um tremendo descaso com a preservação da história do País. Me dava um profundo incômodo ver que um monte de discos que eu gostava e queria compartilhar não estavam mais disponíveis nas lojas.
São os tais “itens raros”…
Exatamente. Eu pensava: “Pô, eu tenho esses discos, por que eles não estão disponíveis para todo mundo? Mas e os outros músicos, e os estudantes?”. Não adianta ser um gênio sozinho. Pra que serve? Diante dessa constatação, me vi impelido a tomar alguma atitude. Se fosse preciso, até usar o prestígio dos Titãs no mercado fonográfico para fazer algo. Sentia que era preciso começar algum tipo de projeto para resgatar, recuperar e divulgar trabalhos importantes. Acredito que um bom disco pode mudar a vida de uma pessoa.
Qual foi o primeiro projeto?
Foi a série Dois Momentos, que saiu pela Warner no fim dos anos 1990. No CD inaugural, coloquei os dois primeiros discos dos Secos & Molhados. O primeiro já estava em CD, mas não havia sido remasterizado e a arte não havia sido recuperada, o que é muito importante. Fiz ainda a remixagem dos discos, não apenas a remasterização – o que permite tornar o resultado ainda melhor. E o CD vendeu muito bem: 60 mil cópias apenas no primeiro ano de lançamento, o que é um ótimo resultado, mesmo para aquela época, em que se vendia muito mais. Depois vieram mais 14 CDs na mesma série: Novos Baianos, Walter Franco, A Cor do Som, Paulinho da Viola… O projeto deu muito certo, e assim abriram-se as portas das outras gravadoras. De lá para cá, trabalhei para todas as grandes. Foram mais de 450 álbuns remasterizados. Cerca de 450 discos que voltaram para o catálogo. O problema é que boa parte já ficou fora de catálogo outra vez. Acabaram virando CDs raros…
Como é a relação com os herdeiros frente aos impedimentos impostos pelos direitos autorais?
Bem, é um problema. Trabalho com obras que têm um valor cultural inestimável. Mas são raros os herdeiros que têm a real compreensão disso. Boa parte vive desses acervos e inviabiliza os projetos. Por que até hoje pouca coisa é lançada do Pixinguinha? Porque a família dificulta. E há outros inúmeros casos. Isso quando não são os próprios artistas vivos que dificultam. O resultado é que muitos discos e artistas não conseguem chegar ao domínio digital. É evidente que os artistas e herdeiros têm seus direitos. Mas, no momento em que a obra tem relevância para a sociedade, não pode ficar presa. É preciso algum dispositivo para corrigir essas distorções.
Como você vê os blogs que distribuem os velhos discos brasileiros?
Não há dúvida que são necessários. Como há essas distorções criadas por uma legislação ultrapassada, as pessoas vão criando novas saídas. É uma forma de dizer: “Já que vocês não vão fazer isso, eu faço”. Sou a favor, acho genial. Esse é o lado bom da tecnologia. Ela pode servir a quem se importa com a cultura nacional, com a nossa música. Se não fossem essas pessoas, muitas histórias da música popular seriam esquecidas. O conhecimento estaria perdido. Esses blogueiros são quase arqueólogos contemporâneos.
Como colecionador, não te incomoda que a apreciação da música digital, com a troca de arquivos pela internet, seja mais superficial?
Há sempre dois lados, os ganhos e as perdas da tecnologia. A capa de LP, por exemplo, é algo muito importante. Pergunte para qualquer um qual foi a capa de CD que o marcou? Poucos saberão responder. Mas de LP, se lembrará na hora. Era um grande espaço para os artistas gráficos. As novas gerações nem se importam com a capa dos discos. Para eles, tanto faz. Querem a gravação em si. Baixam muitas coisas, misturam tudo. Com isso, perdem coisas importantes, como saber quem fez a música, como gravou, onde gravou, quem participou. É uma pena.
Interessante que seu primeiro livro como pesquisador, Bossa Nova e Outras Bossas, foi sobre capas de disco, não propriamente sobre música…
As capas são fundamentais. Nos primeiros discos que relancei, a briga era preservar as capas originais. Algumas gravadoras achavam que tinha que mudar, que a capa original já estava velha. Eu achava um absurdo. A capa pertence ao produto. A Universal, por exemplo, fez uma coleção dos discos da gravadora Elenco, que lançou grandes discos da bossa nova, e mexeu nas capas do Cesar Villela: coloriu, rediagramou… “Remixou” as capas. Sabe o que aconteceu? Levaram uma sábia e estrondosa vaia da imprensa, a ponto de terem de suspender os discos que viriam na sequência. Mexeram numa coisa sagrada, que são as capas do Cesar. Meu trabalho é ser fiel ao original, como se fosse o restaurador de um quadro.
O programa no Canal Brasil tem a mesma premissa?
Considero que O Som do Vinil seja um pós-doutorado em música brasileira. É uma dádiva, aprendi muito lá. Ouço histórias que só são possíveis de ouvir nas entrevistas que fazemos. E muita coisa não vai ao ar porque o programa tem apenas 25 minutos. As histórias que ouço em duas, três horas de gravação não têm preço. Evidentemente, está tudo registrado e guardado. Estamos já na quarta temporada. Aprendi muito sobre o processo de fazer programas para a televisão: edição, imagem, timing. Também estudei muito roteiro. Fico horas na ilha de edição. Como profissional de tevê, parti do zero.
O trabalho com Tom Zé aponta para um novo momento da sua carreira?
Aponta, sim. Fazer uma retrospectiva da obra de Tom Zé era algo mais do que necessário. E, se você quiser trabalhar com música atualmente, precisa entender de outros assuntos. Música hoje está ligada diretamente à imagem. Eu, que sempre gostei de cinema e de música, tenho muito barato em estar numa ilha, acompanhar o processo de edição etc. Mas o meu interesse é música. Não faria um filme de ação, um drama. O que me atrai é a imagem em relação à música: registros, documentários, gravações de show. Vou procurar cada vez mais trabalhar com esse tipo de material. Inclusive, não chamo o projeto do Tom Zé de DVD, chamo de filme. Não queríamos fazer apenas um DVD convencional, apenas um show. No filme, que deve ser lançado até o fim do ano, há muitas intervenções, muitos depoimentos. Pensei em muitas coisas: como ele é? Como é o trabalho dele? Qual é a melhor forma de retratar o trabalho dele? Era preciso ser fiel ao espírito de sua música, como sempre fui fiel aos discos – e também às capas – que tratei de relançar. Sou eternamente grato por dirigir esse filme do Tom Zé, que é, indiscutivelmente, um dos maiores gênios da história da música brasileira. Ainda sou um iniciante, mas acho que tenho feito direitinho a lição de casa.
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