Almanaque Brasil


EUGÊNIO E CAETANO SCANNAVINO

“Saúde, alegria e floresta em pé”

{junho de 2009}

Fotos Edi PereiraEm meados dos anos 1980, dois irmãos – um, médico; o outro, engenheiro – embrenharam-se nas matas da região de Santarém, na Amazônia, topando com gente que perdia filhos por desnutrição e nunca tinha visto um “doutor” de perto. Hoje, Eugênio e Caetano comandam o Projeto Saúde e Alegria, que envolve cerca de 30 mil pessoas em ações de saúde, educação, cultura e economia da floresta. “Há cinco anos atingimos as metas do milênio da ONU”, comemora Eugênio. “E não ficamos apenas no ideal”, completa Caetano. “Temos exemplos concretos de como melhorar a vida na floresta.” Para eles, a Amazônia é o fiel da balança no processo de desenvolvimento do País: “Se conseguirmos resolver as questões da região, vamos mostrar ao mundo que somos o futuro”.


O Brasil conhece a Amazônia?
Eugênio – Acho que não. A Amazônia é 60% do Brasil. Um lugar incrível, de grandes contradições. Muita gente tem uma ideia fantástica sobre a Amazônia. Mas a realidade é muito mais fantástica do que a ideia fantástica que as pessoas têm sobre o local. Lá moram 23 milhões de pessoas, 70% em áreas urbanas. Há um importante parque industrial em Manaus. Existem cerca de 70 tribos de índios que nunca tiveram contato com os brancos. Há mais de 5 milhões de pessoas que sobrevivem por meio do extrativismo, povos da floresta como índios, seringueiros, pescadores, castanheiros, catadoras de cocos. Falam-se 120 línguas. É um universo enorme, dinâmico e complexo. Por outro lado, há um processo civilizatório chegando muito rapidamente, de destruição descontrolada. É verdade que a taxa de desmatamento caiu pela metade. Antes devastávamos uma Bélgica por ano. Atualmente, derrubamos “somente” meia Bélgica…

Quais são os motivos de tamanha devastação?
Eugênio – A pecuária ainda é o grande incentivador do desmatamento. Mais recentemente, a soja, além da extração ilegal de madeira. Essa pressão econômica expulsa as comunidades do local. A frente de ocupação e destruição começou a subir pelo Mato Grosso para Santarém há uns dez anos. Hoje, lá no Projeto Saúde e Alegria, estamos na fronteira da civilização. De um lado, a destruição dos plantios de soja; do outro, as comunidades tradicionais.

As comunidades em que vocês atuam têm consciência da importância da preservação?
Caetano – O recurso natural é questão essencial para a sobrevivência deles. Eles vivem numa situação de pouco dinheiro. O cara sai de manhã pra pescar o almoço, à tarde para caçar o jantar. Não há o discurso de que não se deve desmatar porque a árvore é bonitinha, os bichos são fofinhos. É não desmatar para permanecerem vivos. Eles vêm de uma cultura tradicional muito parecida com a que os índios isolados vivem hoje. Mas não estão numa reserva indígena, com recursos assegurados, políticas públicas próprias. Vivem o processo de degradação ambiental, de pressão sobre a terra, pecuária, latifúndio. Eles não conseguem mais ter a subsistência. Estão deixando de ser extrativistas puros para ser produtores. Precisam gerar renda.

A questão social é tão importante quanto a ambiental na Amazônia?
Caetano – O desafio social é mais importante do que o ambiental. O pessoal vive no meio da floresta, isolado, com difícil acesso a serviços públicos e num processo de esgotamento de recursos naturais. O foco do nosso trabalho é apoiar essa população a ter mais dignidade, mais qualidade de vida. Fixar a população é uma forma de salvaguardar a floresta. Se todos saírem de lá e migrarem para as cidades, aí sim a floresta poderá ser destruída. A melhor estratégia para salvar a Amazônia é uma estratégia social.

Qual a perspectiva dos jovens das comunidades em que vocês trabalham?
Eugênio – Muitos deles tinham o sonho de ir para a cidade, não trabalhar mais na roça. Só que acabavam em favelas, consumindo drogas e tendo filhos precocemente. Percebíamos que boa parte negava a cultura local, queriam ser modernos. Falamos pra eles: “Querem ser modernos? Então vamos fazer jornal, rádio, televisão”. E criamos uma rede de comunicação nas comunidades. Após os treinamentos, eles passavam a buscar pautas na própria cultura. Antes, achavam o trabalho comunitário chato. Atuando como jornalistas, fazendo matérias interessantes e divertidas, passaram a ser um dos mais importantes elementos da educação comunitária. Se engajaram. Depois montamos telecentros de internet em diversos pontos. Ao navegar na rede, começaram a perceber que o mundo exterior não é tão bom quanto imaginam. Que tem guerra, violência e, sobretudo, não há floresta. Eles passaram a valorizar o próprio ambiente.

E como esses jovens trabalham, geram renda?
Eugênio – O PSA montou um trabalho de microcrédito. Muitos se tornaram padeiros, manicures, cabeleireiros, técnicos em rádio, em mecânica. Há peixe permanentemente porque há manejo. A floresta produz matéria-prima para fazerem artesanato, bolsas. Passaram a vender, a exportar. Com opção de comunicação, entretenimento e renda, viram que eram privilegiados por morar numa comunidade linda, pacífica. Estavam em casa. Nunca esqueço de um jovem que me disse: “Doutor, tinha pensado em sair, mas agora está delicioso ficar na comunidade!”.
Caetano – Mas ainda há um considerável problema de educação. Há melhorias nos últimos anos, mas ainda são insuficientes. É fundamental para nós colocar a questão da juventude como uma das prioridades, porque esses meninos serão as futuras lideranças comunitárias.

Quais são os desafios atuais do PSA?
Eugênio – Nos últimos anos, atingimos 100% de saneamento e água tratada. Temos sistema de água por energia solar. 98% das crianças estão vacinadas. Atingimos há cinco anos as metas do milênio da ONU, com exceção da parte de educação. A gente chegou num modelo social de alta resolução e custos baixos. A eficiência é alta, multiplicável e reaplicável. O novo desafio é aplicar isso tudo em larga escala. Não adianta resolver o problema de 10 comunidades se não há escala. Um trabalho consistente em escala é o que pode salvar a Amazônia. Mas isso depende de políticas públicas. Nosso trabalho não é substituir o governo, mas gerar tecnologias que inspirem o governo a fazer o seu papel.
Caetano – E não ficamos apenas no ideal. Temos exemplos concretos para mostrar como melhorar a saúde, diminuir o desmatamento, manter a população no local.

Qual era o quadro quando vocês chegaram?
Caetano – Antes, a mortalidade infantil era uma coisa aceitável, quase cultural. Um quadro inadmissível. Se é difícil aceitar a morte de uma criança por doenças graves, imagina por diarreia…
Eugênio – As pessoas morriam por coisas muito simples. Não existiam cuidados básicos de saúde. Era um absurdo o alto número de morte por desnutrição. Eu era o único médico no meio daquele mundão de gente. Tinha de resolver todos os problemas. No meio da floresta, com gente que nunca tinha visto um médico, eu não tinha direito de falar: “Desculpa, não posso te atender porque não é a minha especialidade”. Tinha que fazer de tudo.

Como foi o começo do projeto?
Caetano – Começamos a criar know-how numa escala menor, com apenas 16 comunidades. Só que, a cada pessoa que treinávamos para atuar conosco, ela acabava multiplicando o saber entre mais pessoas. Surgiam voluntários, que começavam a repassar o conhecimento para comunidades vizinhas. É o processo
de multiplicação horizontal, pelo simples motivo que eles se identificaram e queriam o projeto. Hoje atendemos zonas rurais de quatro municípios: Belterra, Aveiro, Santarém e Juruti. São mais de 30 mil pessoas, que devem ser ampliadas para 40 mil em dois anos.
Eugênio – A população começou a confiar no projeto. O conhecimento técnico passou a se misturar ao saber popular deles. E dessa mescla foram surgindo os nossos métodos. Quando começamos, não havia modelos para nos inspirar. Nem sequer sabíamos que éramos uma ONG. Uma das ações é montar circos nas comunidades.

Como funciona isso?
Eugênio – O circo é uma forma de dar equidade, de mostrar que são todos iguais. Na hora da consulta com um médico, mesmo que involuntariamente, cria-se uma relação de poder.
Já no picadeiro todos são iguais. É um processo de construção coletiva, construção multilateral de saber. O saber não tem dono, não tem verdade absoluta. A verdade é construída conjuntamente.
Caetano –  Os nossos grupos de educadores, professores, médicos e agentes de saúde chegam na comunidade durante o dia. Às vezes, já vestidos de palhaço. Cada um tem que desenvolver suas ações “sérias” durante o dia. Mas com um propósito: preparar alguma esquete para apresentar à noite no circo. Pode ser música, poesia, piadas, brincadeiras. É um circo-processo. E esse processo é tão importante quanto o produto final. Todo mundo é espectador e todo mundo
é artista.

A brincadeira é um remédio eficaz?
Eugênio – Sim, e muito. Quase 80% dos casos atendidos em clínicas médicas são psicossomáticos. Ou seja, causados por fatores psicológicos. Imagina uma mulher para quem ninguém dá atenção, trabalha duro e não é reconhecida, não tem caRinho do marido. Só prestam atenção nela quando fica doente. Aí chega no consultório cheia de choramingos. Se percebo que o problema não é nada sério, receito: “Prepare uma esquete para o circo”. À noite ela está numa felicidade, cantando e dançando. A dor vai embora. É importante estimular o potencial criativo das pessoas. Saúde é alegria, é capacidade de criar, é vontade de interagir com o mundo.

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Como funciona o barco-hospital que percorre as comunidades?
Eugênio – Ele está conosco há três anos. É um barco-hospital de alto nível. Possui tecnologia holandesa e é adaptado para a região. Dentro da embarcação há unidades semi-intensivas, odontológicas, laboratoriais, com médicos e estagiários de grandes universidades do País. Fazemos jornadas cirúrgicas. E não é aquele papo de atender a população e voltar meses e meses depois. Voltamos a cada 33 dias. O barco atende melhor que muito hospital de São Paulo.

Quais são os custos do projeto?
Caetano – Em média, o projeto custa 100 reais per capita por ano. Muito pouco. Boa parte do dinheiro é investimento direto das empresas para ações específicas. Há doadores que estão há muito tempo conosco. É, de certa forma, uma relação estável. Mas, em outros tempos, já falimos três vezes. A mais grave foi logo após o Plano Collor. Tivemos que usar a herança do nosso pai para manter o projeto em pé. Só sobrevivemos porque a população se mobilizou, se apropriou do PSA. Eles se identificaram com a gente. E teve outro lado bom: pelo trauma da falência, aprendemos a fazer ações de alto impacto e baixo custo. Hoje trabalhamos de maneira extremamente profissional. Há auditorias praticamente durante o ano inteiro.

Outro destaque é a exposição itinerante sobre a Amazônia. Como ela surgiu?
Eugênio – A exposição Amazônia Brasil surgiu quando participamos ativamente da formação do Grupo de Trabalho Amazônico, integrada por cerca de 600 ONGs e povos da floresta. Percebemos que os povos amazônicos precisavam se comunicar com o mundo exterior. Todo mundo fala de Amazônia, é uma pauta mundial, mas ninguém sabe exatamente como são as coisas por lá. Então, junto com o GTA, montamos a exposição. É uma exposição grande, com vilas amazônicas completas, maquetes, mapas interativos, cenas de queimadas. Montamos em Paris, Nova Iorque, São Paulo, Rio de Janeiro, China, Alemanha… O mundo precisa saber que ninguém vai salvar a Amazônia só com artesanato. Temos que salvar com tecnologia, design, mercado contemporâneo, tecnologias sustentáveis. A Amazônia é contemporânea, moderna, viável. Tem conceito e mercado. O que não tem é organização e incentivo da produção, capacitação dos produtores, sensibilidade do mercado. Queremos mostrar ao mundo que a Amazônia é viável ao universo contemporâneo.

Pra terminar, o que é brasilidade para vocês?
Caetano – Este país é muito alegre. Tanto faz se está numa comunidade amazônica, num bairro bonito do Rio ou na periferia de São Paulo. Um sujeito que ganha meio salário-mínimo, tem oito filhos para criar, pega três conduções para realizar um trabalho chato, ainda consegue voltar pra casa, olhar os filhos e ter a capacidade de sorrir. Viajo muito, e percebo que esta é uma característica brasileira. Não abrimos mão da felicidade. Continuo achando que este é o país do futuro. E esse futuro está começando a chegar.
Eugênio – O Brasil tem todos os elementos que o futuro vai precisar, como natureza, alegria, humildade. Temos tudo para dar certo. E a Amazônia, para mim, é o fiel da balança. Nenhum dos países que são apontados como as novas potências mundiais têm uma “agenda ecológica”. Nós somos os únicos. Se conseguirmos resolver as questões que se colocam na região, vamos mostrar ao mundo que somos o futuro.

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