KAREN WORCMAN
“O Brasil precisa saber que tem memória.”
Ela zombou das convenções e lançou a pedra fundamental de um museu invisível. Um museu virtual, construído em rede por milhares de brasileiros. Aqui não há obras de artistas, versões oficiais ou objetos históricos. O acervo é todo constituído de histórias de vida. Ou seja, uma instituição que coleciona pessoas: o Museu da Pessoa. Ao longo de 17 anos, Karen Worcman e sua equipe reuniram mais de 11 mil relatos em áudio, vídeo e escritos, colhidos nos quatro cantos do País. Romperam fronteiras e criaram museus nos Estados Unidos, Portugal e Canadá. Desbravaram o mundo empresarial, experimentaram o institucional, invadiram as escolas – sempre com o objetivo de reconstruir diferentes universos a partir do ponto de vista das pessoas. Aos que repetem que o Brasil é um país sem memória, ela retruca: “Somos o país mais rico em memória que conheço, só que as memórias estão no cotidiano. Os museus é que estão vazios”.
Como surgiu a ideia do Museu da Pessoa?
Comecei a me envolver com a história oral quando ainda estudava História, no Rio de Janeiro. Ao fazer alguns trabalhos – primeiro sobre o fotógrafo José Medeiros, depois sobre a imigração de judeus para o Rio de Janeiro –, me vinham algumas questões sobre a função social da história. Um dia, descendo a ladeira em que eu morava, me deu um estalo: deveria haver um lugar onde a alma das pessoas pudesse ser preservada, um museu da pessoa. Um museu não de coisas ou fatos, mas de histórias de gente.
Como a ideia se transformou no Museu?
Foi quando vim para São Paulo. No fim de 1991, trouxemos para cá a exposição sobre os imigrantes judeus, adicionando cabines de coleta de depoimentos para que os visitantes registrassem suas histórias. Os jornalistas que me entrevistavam não entendiam como uma exposição sobre a vida de anônimos poderia atrair alguém. Ou por que as pessoas se interessariam em deixar seus depoimentos. Achavam tudo muito estranho. Mas foi um sucesso. Naquele momento, o grupo de fundadores começou a pensar como o Museu da Pessoa deveria ser. Já com a ideia de que uma história pode mudar seu jeito de ver o mundo. Isso para mim é muito transformador. Transformador no sentido social, cultural, emocional. Aprender a ouvir os outros talvez seja o maior desafio que a gente – como cultura ou como indivíduo – tem a enfrentar.
Havia algum modelo a seguir?
Não, o que havia eram arquivos de história oral. E a maior parte temáticos: histórias dos negros, dos imigrantes, dos sobreviventes do Holocausto. A ideia de um lugar que reúne histórias de todas as pessoas foi inovadora. Assim como o uso da internet. O Museu já nasceu virtual, com a consciência de que nosso acervo não é físico. Os arquivos de história oral costumam ser acadêmicos, ou estão em espaços como bibliotecas públicas. Essa cadeia do museu, aberta a qualquer pessoa que pode visitar esse espaço e registrar sua história pela internet, faz dele uma experiência inovadora. Acho que o salto do Museu da Pessoa se deu por uma combinação de fatores: a ideia de ampliar a participação das pessoas como construtoras do acervo, de fazer uma coisa muito colaborativa bem antes da web 2.0 e de tentar não concentrar os produtos, mas disseminá-los. Já fizemos exposições ambulantes, cabines no metrô, exposições virtuais.
Mudar a concepção do que é um museu e lançar luz sobre a vida de anônimos não dificultou a viabilização do projeto?
Quando começamos, em 1991, vender o modelo cultural ou de memória era inviável. Estávamos na Era Collor, fim das produções cinematográficas… Mas acreditávamos que, se realmente o projeto era bom, ele iria se viabilizar, independente de qualquer coisa. Víamos que a sociedade valorizava o que queríamos fazer. As pessoas compram revistas sobre pessoas, leem sobre pessoas… As pessoas gostam de pessoas. Apostando nisso, começamos a criar mil projetos. Sempre fomos autossustentáveis. E só começamos a trabalhar com patrocínios há três anos. Até então, vendíamos projetos, e essas vendas garantiam o desenvolvimento do Museu. Eu diria que criamos um modelo de negócio.
Como é uma entrevista do Museu da Pessoa?
Preparamos a entrevista para garantir um momento sagrado. Sabe aquelas fotografias de nossos avós ou bisavós, em que aparecem todos arrumadinhos? É algo assim. Temos todo um rito, um método. A pessoa vai lá para tirar a sua foto de marinheiro, ou a sua foto de casamento, ou a foto de quando o filho nasceu – que era quando os antigos eram fotografados. Muitas vezes me perguntam sobre o que as pessoas não contam, ou sobre a veracidade das histórias. O que interessa é o dado pela pessoa, como ela quer se deixar “fotografar”. É como ela vê o mundo, ou como ela quer que o mundo seja visto.
Como possibilitar a atratividade desse acervo?
Hoje criamos coleções na internet, juntando histórias que têm alguma relação: histórias de mulheres, histórias de pessoas que mudam o mundo – mudanças sociais, culturais, pessoais. Ou coleções por afinidades: catadores de papel, profissionais da indústria. Isso proporciona acesso ao acervo. É como chegar a um museu e encontrar uma exposição de artistas modernistas, abstracionistas. Também fizemos muitos produtos. São cerca de 30 livros, documentários, intranet, museus temáticos…
A ideia inspirou museus similares?
Depois que o projeto inicial ficou de pé, o Museu passou a inspirar a criação de vários outros Museus da Pessoa pelo mundo: o Musée de la Personne, no Canadá, o Museum of the Person, nos Estados Unidos, o Museu da Pessoa de Portugal – todos com uma cor local, mas com uma visão e uma metodologia do Museu da Pessoa. Aí percebemos o valor do que havíamos criado. Montamos uma área de formação, que trabalha com a mesma metodologia nas escolas, ensinando professores e alunos a construir a trajetória de seus lugares a partir da história das pessoas. Depois percebemos como o Brasil estava explodindo de iniciativas de redescoberta de seus tesouros locais, e começamos o Brasil Memória em Rede, que junta iniciativas para desenvolver um novo jeito de pensar a história do Brasil. E, a cada passo que dávamos, encontrávamos mais passos a dar. É incrível, não para nunca.
Quais histórias mais te marcaram?
A entrevista que fiz com o educador Paulo Freire foi lindíssima. Ele falou sobre como pensava a educação, mas também sobre a família, o amor, a primeira mulher. Resultou num material único sobre ele. Outro sujeito muito legal de entrevistar foi o Mestre Alagoas. Ele aprendeu a ler com a irmã, lá no sertãozão. Adolescente, pegou o pau-de-arara para São Paulo, virou faxineiro de um prédio e foi morar na casa de máquinas do edifício. Mas detestava fazer faxina. Gostava mesmo era de ler. Então foi seguindo o sonho. Andando pelo centro da cidade, encontrou um daqueles sujeitos que anunciam cursos em cartazes. O cara era paraplégico e dava cursos de auxiliar de contabilidade, inglês, francês e latim! Ele acabou fazendo todos eles. Deixava o salário todo… E, tanto que fez, entrou no curso de Chinês da usp. Virou doutor em Desenvolvimento Rural. Mais tarde, criou uma biblioteca com mais de 60 mil livros em Paiaiá, na Bahia. É a maior biblioteca rural do mundo!
Se fosse ficção, diriam que é inverossímil…
Uma vez perguntaram ao Gabriel García Márquez de onde ele tirava sua visão mágica do mundo. “De lugar nenhum. É só olhar pela janela.” A magia está no mundo. É tão bonita a história de cada um. Ao longo da vida, fui descobrindo o poder transformador dessas histórias. Nas instituições, nas escolas… O Museu foi absorvendo meus sonhos particulares, e hoje sou parte disso. Ele já não é parte de mim. Eu é que sou parte do Museu.
Como acontece o trabalho nas escolas?
Esse trabalho existe há 10 anos. É um trabalho longo, de um a dois anos. Turmas de alunos escolhem personagens da cidade, se preparam, aprendem a fazer entrevistas. Um grupo tira fotos, outro desenha, outro entrevista. De lá saem materiais lindíssimos. As crianças aprendem a construir um texto coletivo, a reler, a reouvir. Os resultados são incríveis, como a valorização da memória local, o diálogo entre diferentes gerações, a aproximação entre a escola e a comunidade, a percepção da importância do saber das famílias por parte dos professores. Ao longo desses anos, descobrimos o poder da memória como ferramenta.
As particularidades do País contribuíram para a criação do Museu?
O Museu da Pessoa só podia ter nascido no Brasil. Este é um país que está na fronteira entre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento. Na Europa, por exemplo, a história está superinstitucionalizada. Em outros países, porém, há só a tradição oral. O Brasil mistura esses dois cenários. É também um país que vive entre o mundo rural e o urbano; o industrial e o artesanal. Somos muito ricos culturalmente. Sempre dizem por aí que o Brasil é um país sem memória. Mas o fato é que somos o povo mais rico em memória que eu conheço, só que ela está no cotidiano. Os museus é que estão vazios. As memórias estão em exercício o tempo todo. Sobretudo nos meios rurais. O Brasil tem esse desafio a superar, porque nos últimos 50 anos surgiram as grandes metrópoles e nelas um certo esquecimento, uma certa amnésia. As famílias vêm do interior com muita informação e aqui, com as novas gerações, há uma ruptura. Esse movimento cria outras culturas, mas também um limbo cultural. O problema da amnésia cultural é o sujeito virar uma tábula rasa, que aceita qualquer coisa que o mundo lhe ofereça. Um país com tanta qualidade cultural não pode admitir isso. Por isso estamos cada vez mais empenhados em disseminar o conteúdo que produzimos.
Contamos histórias de um jeito diferente?
Dizer que somos os únicos a sentar e contar histórias não é verdade. Isso é humano. A relação entre os seres humanos por meio de histórias é poderosa em qualquer lugar do mundo. Mas aqui isso é mais natural. Aqui, montamos uma cabine de depoimentos e o sujeito entra e conta sua história sem nem saber pra quê. Me parece que a noção de público e privado é mais ambígua. Compartilhamos a esfera privada com mais facilidade – seja o interior da nossa casa ou o interior da nossa vida.
O Museu é capaz de conquistar também os jovens das grandes cidades, sempre tão estimulados?
Cada vez mais o desafio é lidar com as novas mídias, e também com as mídias convencionais. De certo modo, foram surgindo na internet ferramentas que possibilitam caminhos parecidos com os do Museu: blogs, microblogs, redes sociais. O que, na verdade, só demonstra que as pessoas querem falar de suas vidas e ouvir sobre a vida dos outros. Em 2006, em parceria com outras instituições, demos início a um movimento chamado Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens, que articula e incentiva jovens a construir suas histórias, transformadas em arquivos de áudio, vídeo e outras manifestações. Aqui em São Paulo, um dos jovens que participou das atividades saiu muito inspirado pela experiência. Voltou para seu bairro, o Parque Residencial Cocaia – uma ocupação às margens da represa Billings – e resolveu mobilizar os grafiteiros do lugar. Eles começaram a entrevistar os moradores, escolheram uma rua e pintaram nos muros das casas a trajetória daquela gente – de um lado da rua desenharam as histórias; do outro, reproduziram as frases que colheram. É emocionante.
O que você diria que aprendeu sobre o Brasil nesses 17 anos de Museu?
Acho que aprendi os Brasis. Os mil Brasis que existem. Sabemos que o País é múltiplo, mas quando reconstruímos o Brasil a partir do relato das pessoas isso fica ainda mais claro. Aprendi a valorizar não apenas o tradicional, mas também a reinvenção das culturas, porque estamos sempre reconstruindo nossas identidades. Aprendi a valorizar a periferia, notar como, em lugares aparentemente tão ruins, nasce uma convivência bacana com o espaço, motivada pelas relações entre as pessoas e pela relação com a memória. E isso acontece independentemente do nosso trabalho. Entretanto, acredito que seja fundamental o trabalho de vocês do almanaque, do Museu e de outras pessoas e instituições que batalham pela valorização de alguns aspectos do Brasil que permanecem escondidos. A gente sabe que haverá sempre uma cultura dominante. Se conseguirmos garantir um espaço adequado para a história dos lugares, para os saberes das pessoas, teremos cumprido o nosso papel. Ou melhor: estaremos cumprindo o nosso papel, porque esse é um trabalho que não termina. O Brasil precisa saber que tem memória. E que essa memória tem valor.
Saiba Mais
Site do Museu da Pessoa: www.museudapessoa.net
Memórias de Brasileiros – Uma história em todo canto, organizado por José Santos
(Museu da Pessoa / Peirópolis, 2008).
Tags: Karen Worcman, Museu da Pessoa



Carregando... 


- 2008, Andreato Comunicação e Cultura