Almanaque Brasil


THOMAZ FARKAS

Não há no mundo inteiro um povo como o brasileiro

{julho de 2009}

Thomaz Farkas
Thomaz Farkas

A família Farkas embarcou da Hungria para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial. No centro de São Paulo, abriu uma pequena loja de fotografia. Com o pai no comando, a mãe na caixa e o filho ajudando no laboratório, a loja cresceu. Virou a maior rede do País, a Fotoptica. Mas o rapaz não pensava apenas na vida empresarial. “Nem amador, nem profissional”, Thomaz tornou-se fotógrafo. Foi o primeiro a expor num museu brasileiro. Também comandou a produção de documentários pelo País, num projeto fundamental para a nossa cinematografia, a Caravana Farkas. Hoje, aos 84 anos, afirma nunca ter ganho um tostão em nenhuma das duas atividades. “O meu único objetivo era mostrar o Brasil aos brasileiros.”

Como foram os primeiros anos da sua família no Brasil?
Meus pais vieram pra cá no comecinho dos anos 1920. Naquele pós-guerra, estavam muito pobres, muito atrapalhados financeiramente. Aí um tio sugeriu: “Vai pro Brasil. É o país do futuro”. Já moravam em São Paulo quando eu estava pra nascer. Mas viram que não tinham dinheiro para o hospital. Meu avô então mandou uma passagem para minha mãe voltar para a Hungria. Eu nasci lá, em 1924. Voltamos em 1930, novamente para São Paulo. Sempre agradeço por terem vindo pra cá. O Brasil realmente é o melhor país do mundo. A natureza é linda, mas o que nos difere são as pessoas. Eu já viajei para tudo que é canto, e posso dizer: não há gente como a brasileira.

O negócio da família já era fotografia?
Sim, desde a Hungria trabalhávamos com fotos. Temos fotografia nas veias. Meu avô materno tinha uma loja em Budapeste. O irmão do meu pai tinha uma outra loja. Meu tio ajudou meu pai a abrir a Fotoptica em São Paulo. No começo era uma lojinha na rua São Bento, no centro da cidade. Meu pai comandava, minha mãe ficava na caixa registradora. E eu, com uns 13 anos, ajudava no laboratório. Também atendia ao público. Eu que escolhia os cartões-postais de São Paulo para os clientes.

E já dava os primeiros cliques?
Desde pequenininho tinha muito apego à foto. Lembro de, com 8 anos, pôr o papel fotográfico ao sol para revelar. Tenho uma enorme quantidade de álbuns de infância, minhas ou tiradas por mim. Guardo todos até hoje. Quando fomos morar no Pacaembu, gostava de tirar fotos dos gatos da minha casa, do bairro. Também era membro de uma turma do colégio Rio Branco que andava de bicicleta. Era A Esquadrilha Invencível. Entre os sobes e desces do bairro, a câmera ficava sempre comigo; eu estava sempre pronto para fotografar. Tirei fotos da construção e da inauguração do estádio do Pacaembu; a torcida, a movimentação em volta da praça Charles Miller…

Quando fazer fotos começou a tornar-se algo mais sério?
Por coincidência, no mesmo prédio da Fotoptica funcionava um clube de fotografia, o Fotoclube Bandeirante, que comecei a frequentar. Como trabalhava na loja, tinha acesso a todas as máquinas, ao laboratório e conhecia todo o processo de revelação e ampliação. A minha vida desde então passou a ser toda dedicada à fotografia. Mas costumo dizer que nunca fui nem profissional, nem amador. Transito até hoje no meio termo.

No começo, quais caminhos pretendia seguir?

Eu tirava foto de tudo que me interessava. Não queria trabalhar com fotojornalismo. A fotografia artística, no entanto, ainda era algo muito distante. Então segui no meio do caminho, atrás do que me sensibilizava. As coisas aconteciam e eu acontecia junto. O fotoclube, por exemplo, foi algo que comecei a me afastar aos poucos. Havia um esquema competitivo que eu não gostava. Quando voltávamos das excursões, eram atribuídas notas de zero a 10 a cada elemento da foto. A coisa da competição era muito tacanha, sem uma finalidade mais abrangente e interessante. Aquilo não era pra mim. Eu queria fazer outra fotografia, e percorri o Brasil atrás desse meu desejo.

Você produziu fotos em outros países?
As fotos das minhas viagens são só para lembranças pessoais. Gosto mesmo é de fotografar o Brasil.

Como começou a criar um estilo próprio?
Na Fotoptica, eu era o responsável por importar os livros de fotografia. Também havia muitas revistas estrangeiras. Ou seja, via em primeira mão o que o mundo inteiro estava fazendo na área. Eu analisava e tomava posição, formava conceito sobre o que estava vendo. Algumas coisas, tentava fazer igual. Outras me inspiravam, mas eu começava a criar a partir de uma visão própria. Também viajava e gostava de visitar galerias e museus de várias correntes artísticas. Aos poucos, comecei a criar um estilo, porque tirar fotos me emocionava, como me emociona até hoje. Acredito no caráter instintivo da fotografia. Nunca houve temática preferida. Os temas surgiam e eu estava preparado para esse surgimento.

Formou-se em engenharia também, não?
Sim, me formei durante os anos 1940, mas nunca me interessei em trabalhar como engenheiro. A única coisa que fiz na área foi desenhar os laboratórios da Fotoptica, e uma coisa ou outra por aí.

Em 1949, você fez a primeira exposição fotográfica num museu, o Masp. Foi uma quebra de barreira?

O Brasil já estava numa época de valorização da fotografia. Eu era conhecido no Masp, amigo do pessoal do museu. Eles já ansiavam por adotar a fotografia. Resolvemos então montar a exposição. Foi um andar todo dedicado às fotos. O Masp ainda ficava na rua Sete de Abril. Ficou muito interessante. Mais tarde, desenvolvi o laboratório de lá. E também dei aulas no Masp.

Um de seus registros mais famosos é o da construção de Brasília. Como foi?
Foi uma maravilha, um negócio muito interessante. Fui várias vezes registrar a construção, e estava inclusive na inauguração. Senti que meu coração ficou lá. Fiz fotos dos operários, da mata selvagem, das primeiras edificações sendo erguidas. Numa foto panorâmica, mostrei as várias estradas chegando à futura capital. Ainda hoje, quando visito a cidade, acho tudo incrível.

Durante a festa do quarto centenário de São Paulo, em 1954, você registrou em filme uma apresentação de Pixinguinha e Donga no Parque Ibirapuera. É verdade que só encontrou esse registro décadas depois?
Sim. Eu sempre adorei a música brasileira. Mas naquela época não era tão fácil assistir a grandes músicos ao vivo. Soube que o regional de Pixinguinha vinha tocar na festa do quarto centenário. Peguei minha filmadora, que não registrava o som, e fui pra lá. Pus num tripé e filmei tudo. Mas aí esqueci o material. Décadas depois, revirando os arquivos do meu escritório, vi o filme. Fiquei maravilhado. Conversei com o pessoal do Instituto Moreira Sales e eles descobriram um disco que continha as músicas que foram tocadas nessa ocasião. Bastou gravar o som por cima. Ficou muito bonito.

Nos anos 1960 e 1970 você comandou equipes de cinema que percorreram o País para documentá-lo. Como foi esse projeto?
Essa ideia surgiu do meu amor pelo Brasil. Era uma época em que não havia televisão. Meu único objetivo era mostrar o Brasil aos brasileiros. Mostrar para o pessoal do Sul como vivia o pessoal do Norte e do Nordeste. E vice-versa. Sentia que aquilo era necessário. Foram mais de 30 documentários. Eu agia como produtor. E, em alguns casos, como diretor.

Thomaz Farkas
Thomaz Farkas

De onde veio o financiamento da Caravana Farkas?
Do meu bolso. Mas não era caro como hoje. Por trabalhar na Fotoptica, eu conseguia o material de filmagem mais barato. Não era algo impossível. Muitos filmes eram para ser exibidos comercialmente. Infelizmente não ocorreu. Mas foram mostrados em universidades, cineclubes. Esses filmes ficaram conhecidos, o que era o meu grande objetivo. Era uma grande caravana sobre o Brasil.

A primeira ocorreu em 1964, época de transição política. Houve problemas com a ditadura?
Não, porque além de não terem viés político, nossos filmes não eram exibidos para grandes públicos. Só tentaram impedir um, que mostrava como o gado era morto. Mas tentaram em vão. Foi feito exatamente como queríamos.

Como as equipes eram recebidas nos rincões do País?
A sensação de ir para tantos lugares era ótima. Normalmente, alguém do local nos acompanhava, e dessa forma éramos recebidos muito bem. Aí filmávamos a feira, o centro da cidade, a vida cotidiana. Tinha gente que perguntava quando poderiam assistir a si mesmos, porque a tevê não estava difundida, tinham curiosidade de entender o que era aquilo. Eu explicava direitinho. Foi um grande documento sobre o Brasil. A gente foi atrás de saber quem era o brasileiro. Porque o País ainda não se conhecia em sua totalidade. E revelar o Brasil é uma coisa muito, muito importante. O que eu puder fazer, mesmo com 84 anos, ainda farei.

Em 1979, você criou a Galeria Fotoptica. Qual era a intenção?
Era uma galeria de fotografia que permitia que os fotógrafos brasileiros registrassem seus trabalhos. Uma forma de fazê-los comercializar as obras. Se até hoje o brasileiro não tem o hábito de comprar fotografia, de colecionar como arte – como os norte-americanos e europeus têm –, imagina naquela época. Entre os expositores estava gente que se tornaria referência, como Sebastião Salgado. A galeria acabou, porque quem financiava era a Fotoptica. E o banco que comprou a rede não se interessou em sua manutenção.

Como você definiria a função da fotografia?
É uma importante documentação do planeta. É uma forma de conhecer o mundo mais importante do que o cinema ou outros meios. É uma técnica largamente difundida por meio de jornais e revistas. Há colecionadores, que as mantém como mantém gravuras, pinturas e esculturas. Já entrou na categoria de arte.
Qual o seu fotógrafo preferido?
É o Zé Medeiros, já falecido, um grande amigo meu. Tinha um talento incrível.

Você se considera um fotógrafo profissional?
Nunca ganhei um tostão tirando fotos. Fazia o que me interessava, o que me emocionava. Sempre fui meio marginal. Aliás, dinheiro sempre foi algo difícil nessa profissão. E, apesar dos fotógrafos brasileiros serem ótimos, demoraram para ter notoriedade internacional. Não conseguiam ter visibilidade nos Estados Unidos, na Europa. A fotografia brasileira não era exportada. Eu mesmo consegui pouca notoriedade no exterior.

E os nossos fotógrafos já conseguem esse tipo de visibilidade?
Quem quebrou a barreira foram nomes como Sebastião Salgado, Miguel Rio Branco, Mario Cravo Neto… Gosto muito de todos eles. O Salgado, inclusive, está atualmente numa outra categoria. Ele sabe valorizar seu trabalho, cobra caro por ele. Criou uma editora muito importante na Europa. É uma pessoa muito bacana, tanto pessoalmente quanto para a fotografia brasileira.

Você faz fotos até hoje?
Sim, principalmente da minha família, que é muito grande. Tenho quatro filhos, muitos netos e bisnetos. Todos são intimamente ligados à imagem. Também continuo a trabalhar com as minhas fotos. Atualmente, estou bem interessado em difundir minhas fotografias antigas, que estão em mostras, museus. Tenho uma seleção de fotografias muito grande. O Instituto Moreira Salles vai fazer um livro com 100 fotografias minhas. Vamos ter novidades.

Já usa câmeras digitais?
Não, ainda não. Me dou muito bem com a rolleiflex, com a leica. Mas o surgimento das digitais não me incomoda em nada. Ainda vou comprar uma, pra experimentar.

O que é brasilidade pra você?
Brasilidade é descobrir as pessoas, ver as pessoas, entrevistar as pessoas. Toda a minha vida foi dedicada a este país e a esta gente. Antigamente, quando eu ainda não a conhecia direito, era uma maravilha ainda maior viajar pelo Brasil, ver as novidades, as cerimônias populares. As pessoas são maravilhosas. E são as pessoas que promovem a vida. Não há no mundo inteiro um povo como o brasileiro.

Saiba Mais Clique aqui e confira fotos de Thomaz Farkas e o vídeo de Pixinguinha e Donga em 1954.

Da Redação
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