Almanaque Brasil


ZILDA ARNS

Heroína do século

{janeiro de 2003}

Zilda Arns

Médica pediatra e sanitarista, Zilda Arns Neumann fundou e coordena a Pastoral da Criança, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB. Atende mais de 1 milhão e 600 mil crianças e 76 mil gestantes, com ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. A primeira experiência, em 1983, desenvolveu-se em Florestópolis, Paraná, onde morriam 127 crianças a cada mil que nasciam. O índice caiu a 28 por mil em um ano. Hoje, o índice é inferior a 13 por mil nas áreas em que a Pastoral da Criança atua. A média nacional é de 34,6 por mil. A entidade serve de modelo para países da África, Ásia e América Latina.
Nascida a 25 de agosto de 1934 em Forquilhinha, Santa Catarina, Zilda é viúva e mãe de cinco filhos. Representa a CNBB no Conselho Nacional de Saúde e é conselheira do Programa Comunidade Solidária. Indicada pelo governo brasileiro ao Prêmio Nobel da Paz em 2001 e 2002, em 2 de dezembro passado Zilda recebeu, em Washington, o título de Heroína do Século, atribuído pela Organização Pan-Americana da Saúde.

Almanaque Brasil: No Brasil existe gente passando fome ou são “problemas locais de subnutrição”?
Zilda Arns:
Existem pessoas passando fome: 13% da população é miserável. Fiquei contente de o presidente Lula ter o combate à fome como meta número um. A fome não vem só por falta de comida, vem também pela ignorância, falta de solidariedade humana dentro da família, da comunidade. Oferecer comida não vai erradicar a miséria. O alimento deve vir acompanhado de promoção humana, alfabetização de jovens e adultos, projetos de capacitação para o trabalho, perspectiva de vida.


“A fome não vem só por falta de comida, vem também pela ignorância, falta de solidariedade”.

AB: Trata-se de um grande projeto político.
ZA:
Tantos anos de assistencialismo no Nordeste e a pobreza só aumentou. Outro problema é a corrupção. Na doação de cestas básicas vi, muitas vezes, políticos dizendo “arrumei a cesta básica para você”, só para ganhar eleições. Agora, se tiver o cartão eletrônico e a mulher puder tirar o dinheiro e gastar onde quiser, ela eleva sua auto-estima e o sentido de cidadania. Não deve haver casas credenciadas e produtos determinados, porque isso pode gerar corrupção. E se as pessoas beneficiadas quiserem comprar os ovos na vizinha ou o leite do vizinho que tem uma vaquinha? Não podem, têm que gastar na casa credenciada. Isso não eleva a cidadania.
Outro cuidado é que todos os beneficiários sejam os mais pobres. Muitas vezes os selecionados são cabos eleitorais, que falsificam dados.

AB: A senhora fez restrições ao Fome Zero.
ZA:
Tenho dito que há uma chuva de boas idéias. Projetos muito bons que falta fazer rolar na prática.


“Gostaria de colaborar com o governo Lula na erradicação da fome e da miséria”.

AB: Que perspectivas a senhora vê nessa “chuva de boas idéias”?
ZA:
Não me foi oferecido cargo e se me oferecessem não aceitaria. Participaria, sim, com a Pastoral da Criança. Ajudaríamos mais de 3.555 municípios onde temos comunidades. Temos uma legião de 155 mil voluntários. Tenho certeza que vamos nos dar muito bem. O próximo governo naturalmente irá formar pessoas que levem isso para frente. Mas temos que valorizar o que está funcionando bem, como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, erradicação do trabalho infantil, assistência ao idoso.
Gostaria de colaborar com o governo Lula na erradicação da fome e da miséria.

AB: A senhora tem algum trabalho conjunto com o MST?
ZA:
Não temos nenhum convênio com o Movimento dos Sem-Terra. Quando se forma um acampamento, crianças começam a morrer, então chamam a Pastoral da Criança. Vamos até eles, treinamos pessoas para cuidar daquelas crianças.
Fiquei comovida quando fui a Guajará-Mirim, em Rondônia. Uma senhora me abraçava e chorava: “Sou sobrevivente do massacre de Corumbiara. Tinha quatro filhos, três desnutridos. Chegou a Pastoral da Criança, tirou minhas crianças da desnutrição, me ensinou a ler e escrever. Tantas coisas maravilhosas, que me tornei líder da Pastoral da Criança, depois coordenadora comunitária e hoje sou coordenadora paroquial. Só tem mais uma comunidade que ainda não está com a Pastoral da Criança aqui na região. Se Deus quiser, até o fim do ano, ela também vai ter esse benefício.”
Essas coisas que animam: ver o fruto da transformação, e de forma pacífica. A Pastoral da Criança é conhecida por todas as classes sociais e religiões como a Pastoral da esperança e da alegria.

AB: É curioso como a Pastoral da Criança mantém essa estrutura. Qual é o segredo?
ZA:
Temos um custo baixo: R$ 1,03 por criança/mês foi o custo do ano passado. Sempre menos de meio dólar. O segredo é ser fiel aos objetivos. Economizar ao máximo, treinar e investir em capacitação; gastamos 90% dos recursos em pessoal. Alfabetização também. Uma pessoa pobre, sem saber ler e escrever, fica dependente dos outros. Se queremos libertá-la, temos que dar um instrumento de libertação, a alfabetização. Nada é mais includente do que a informação.

AB: Como isso é estruturado?
ZA: Comecei sozinha. Depois, datilógrafa, secretária, contador, hoje somos cerca de 40 pessoas. Temos estrutura nacional, elaboramos materiais educativos testados nas diferentes regiões. Às vezes a terminologia significa outra coisa em outra região. A gente tem que fazer que seja inteligível para todos. Temos um grupo estadual. A sede administrativa mais forte da Pastoral da Criança são as dioceses, microrregiões. Captamos verbas e mandamos em dinheiro, para chegar até as comunidades. Elas nos prestam contas e nós prestamos conta aos doadores. Temos o nível nacional, estadual, microrregional, e temos a paróquia que é a sede administrativa mais baixa da Igreja. Apesar de sermos ecumênicos, a administração é da Igreja Católica, que no Brasil são 80% católicos ou mais. Nas comunidades temos os líderes. Nós multiplicamos multiplicadores, esses multiplicam outros que chegam até as bases.
Temos um excelente sistema de informação. Em 1987, informatizamos.

AB: Tem limite operacional?
ZA:
Atualmente estamos atendendo 19% das crianças pobres. Para duplicar, precisamos de mais dinheiro. Trabalhamos com poucos recursos. Ensinamos só o que é simples, não trabalhamos com coisas complicadas, porque são caras e beneficiam poucos. Queremos coisas simples que beneficiem em massa e que salvem muitas crianças.

AB: Quais os próximos passos?
ZA:
Queremos aprofundar em municípios de menor índice de desenvolvimento humano. Queremos erradicar o analfabetismo pelo menos nas líderes. Ainda há muitas analfabetas. Cerca de 17%.


“Muitas líderes são miseráveis, analfabetas, mas com o coração enorme e sedentas por aprender mais”.

AB: Como a Pastoral da Criança vê a questão do planejamento familiar?
ZA:
À medida que educamos nossas mulheres, elas tomam consciência e escolhem o método que acham mais adequado. O melhor método é a educação e a suprema lei é a consciência do casal. A Pastoral da Criança respeita a consciência do casal e passa a informação.
Fui à Guiné Bissau e fiquei emocionada ao visitar seis comunidades muçulmanas com a Pastoral da Criança. Também fomos premiados por judeus, luteranos, metodistas, batistas, ortodoxos. Temos o apoio de todas as religiões, todos os partidos e todas as classes sociais. A maior colaboração, inclusive em dinheiro, tirando o governo, vem dos pobres. Temos campanha de doações pela conta de luz no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Bahia e Alagoas. De cada cem doações, 90 ou mais são abaixo de 1 real. Temos o Criança Esperança, da Rede Globo, maior financiador não-governamental. Temos a Tim Celular que ajuda cerca de 900 alunos de alfabetização por mês. Temos entidades que fazem as colheres de soro caseiro para medir sal e açúcar. Temos o HSBC e outros colaboradores.


“Sempre imaginei o dia em que cada mãe soubesse cuidar de seu filho. Seria uma beleza”.

AB: O soro caseiro parecia tão óbvio, por que nenhum governo pensou nisso?
ZA: Sou pediatra e sanitarista com muita vivência na área de saúde pública. O que mais vi é a ignorância das mães. Trocam o leite de peito pela mamadeira. Como pediatra, gastava mais da metade das consultas educando as mães.
Sempre imaginei o dia em que cada mãe soubesse cuidar de seu filho. Seria uma beleza. Uma rede de solidariedade humana para incentivá-la, para motivá-la, para que ela, o pai, a família cuidem realmente da criança. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar com a Igreja, minha intenção era chegar no coração de cada mãe. Porque elas estão desmotivadas com o marido que as maltratou, com o pagamento do aluguel atrasado. Então, não cuidam das crianças. Estão cheias de espinhos.
Imaginei uma rede de solidariedade feita com pessoas da comunidade, em que cada líder tivesse o compromisso de passar tudo para as mães. Ensiná-las a olhar para a criança com uma educação continuada. Queria que as líderes visitassem as mães todos os meses; que pesassem cada criança pertinho da casa delas; que as mães celebrassem a vida no dia do peso; que levassem suas crianças para brincar; que pudessem aprender mais. Um dia de lazer e felicidade também para as mães.

AB: O método trabalha nas duas frentes, prevenção e tratamento?
ZA:
Tem dia certo. Damos fitoterapia, multimistura e uma porção de outras coisas para incentivá-las a não comprar medicamentos. Às vezes, gastam metade do dinheiro na compra de medicamentos sem receita. Ensinamos também reconhecer sinais que indicam que devem procurar o médico.

AB: Como as líderes entram na Pastoral da Criança?
ZA:
Elas são identificadas na comunidade. Geralmente tem uma pessoa ou duas bem conhecidas. Explicamos o que é a Pastoral da Criança e elas passam a fazer visitas. Depois são chamadas para uma reunião, onde são explicadas as causas das doenças e como a Pastoral da Criança pode ajudar. Quem aceita trabalhar como voluntária passa por uma capacitação inicial de pelo menos 40 horas. Depois, a cada dois meses, recebe um jornal e ouve programas semanais de rádio que dão reforço educativo. Fazemos encontros de trocas de experiências.


“O pagamento do pobre não é só dinheiro. Na hora que ele aprende mais, sente aquilo como pagamento”.

AB: Trabalho de formiguinha.
ZA:
Primeiro deve-se ter uma política bem definida: o que nós queremos? Porque às vezes as pessoas querem uma coisa, mas daqui a pouco já vira outra e não acontece nada. Nossa meta é reduzir a mortalidade, a desnutrição e a violência. Fazemos uma porção de coisas, mas todas para esse objetivo.
Trabalhamos com as líderes comunitárias como agentes de transformação social. Investimos na líder que mora no ponto de miséria e de pobreza. Muitas são miseráveis, sem dente, sem emprego, analfabetas, mas com o coração enorme e sedentas por aprender mais. E 91% são mulheres e pobres. O pagamento do pobre não é só dinheiro, é também o saber. Na hora que você promove, que ele aprende mais, sente aquilo como pagamento. Também a solidariedade fortalece o tecido social. São ações simples e facilmente replicáveis. Uma líder bem preparada leva, pelo menos, dois anos para aprender. Temos que ter paciência.

AB: E o título de Heroína do Século?
ZA: É a primeira vez que alguém recebe. Eles estudaram heróis do século e tive a graça e a honra - que quero transferir a todas as pessoas que trabalham comigo e sempre me ajudaram. Sempre trabalhei com amor e quero me aperfeiçoar para acertar cada vez mais. Me sinto muito feliz e emocionada. É o prêmio máximo que uma profissional poderia pensar um dia em receber.

Luiz Henrique Gurgel e Mariana Proença
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