Almanaque Brasil


27 DE FEVEREIRO - DIA DOS VELHINHOS

Quem inspirou Cartola merece a fama que tem

1976

{fevereiro de 2002}
Dona Zica, a eterna Primeira-Dama da Mangueira

Dona Zica, a eterna Primeira-Dama da Mangueira

Espantada com a quantidade de rosas que nas­ci­am no jardim, perguntou ao marido se sa­bia o mo­ti­vo.
“Sei lá, as rosas não falam.”
Quinze dias depois, estava pronto o samba As Ro­sas Não Fa­lam. Autor: Cartola. Ho­me­na­ge­a­da: sua mu­lher. Co­nhe­ci­da na­ci­o­nal­men­te como pri­mei­ra-dama da Mangueira, ela nas­ceu numa tar­de de do­min­go de carnaval. O nome Eu­zé­bia da Silva soou es­tra­nho para a madrinha, que a apelidou Zica para sem­pre.
Aos quatro anos, muda com a família para o Morro da Man­guei­ra. Aos sete, troca a escola pelo tra­ba­lho de empregada do­més­ti­ca.
“Era tratada como escrava.”
Levava surra quando a patroa não ficava sa­tis­fei­ta com o ser­vi­ço. Pediu demissão. Passou a trabalhar com a mãe, la­van­do e co­zi­nhan­do para fora. Já des­fi­la­va no car­na­val, no bloco do tio Júlio, dos pri­mei­ros a aparecer no morro. Em 1928, Car­to­la, o futuro marido, fundou a Es­co­la de Samba Man­guei­ra. Zica saiu de bai­a­na.
Casada aos 19 anos com um fundidor, teve cin­co fi­lhos. Qua­tro morreram. Adotou mais um. Em 1952, visitava a irmã quando caiu nas graças de Angenor de Oliveira.
“Cartola e eu nos conhecíamos desde crianças. Car­to­la ca­sou com uma moça e eu casei com outro ra­paz. Ficamos muito tem­po longe um do outro. Fiquei viúva, ele tam­bém. Quando nos re­en­con­tra­mos, ele jogou aquele pa­pi­nho dele, eu tam­bém es­ta­va à toa, e daí fomos morar jun­tos.”
Casaram depois de 12 anos no Restaurante Zi­car­to­la. Sonho antigo.
“Eu cozinhava, ele tocava.”
O restaurante durou pouco.
“Tivemos que fechar por causa das dívidas. Ele dei­xa­va os ami­gos pagar fiado.”
Zica foi fundamental na vida de Cartola. Acom­pa­nhou-o nas apre­sen­ta­ções até 1980, quando ele morreu. Aos 87 anos, vive para o samba e para a Mangueira. In­te­gran­te da Velha Guarda, apre­sen­ta-se com o grupo, trabalha em pro­je­tos so­ci­ais e faz as hon­ras da casa quando al­guém vi­si­ta o morro.
“Este é o meu lugar e tenho o maior prazer de apre­sen­tá-lo para o mundo inteiro.”

Janaina Abreu
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