Almanaque Brasil


Miguel Chikaoka

{março de 2000}

Filho de imigrantes japoneses, o fotógrafo Miguel Chikaoka nasceu em Registro, interior de São Paulo, e escolheu Belém para morar no início dos anos 80. É um dos fundadores da agência Kamara Kó, especializada em reportagens e documentários sobre temas socioculturais e ambientais. Nesta entrevista concedida ao Almanaque Brasil de Cultura Popular, ele fala da gente e da paisagem do que considera uma “cidade privilegiada”.

Reprodução/ABEuclides da Cunha escreveu: “Não se imagina, no resto do Brasil, o que é a cidade de Belém”. Afinal, o que é?
É uma coisa que se renova a cada dia. Como o olhar de um apaixonado que descobre e se descobre num movimento sem fim. Inspiro-me em Fernando Pessoa, que tão bem traduziu essa coisa do sentimento, do amor, do olhar: “… o mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos) mas para olharmos para ele e estar de acordo… porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar…”

Fale da história dessa cidade.

Do ponto de vista dos colonizadores, a história da cidade começou há 384 anos com o desembarque da expedição portuguesa às margens da baía do Guajará para evitar a ocupação dos holandeses, ingleses e franceses que disputavam o domínio da região norte do continente sul-americano. No local, construíram o Forte do Presépio, hoje Forte do Castelo, e batizaram a nova conquista de Feliz Luzitânia, que depois foi chamada de Santa Maria do Grão Pará, em seguida Santa Maria de Belém do Grão Pará e, hoje, simplesmente Belém. Mas a região já era habitada por uma civilização milenar, cujos traços ainda estão sendo descobertos. Esses traços integram o riquíssimo acervo do Museu Goeldi. Penso que ainda temos muito a aprender com e sobre a cultura e a organização desses povos.

Waldo MarquesO povo de Belém vive num ambiente privilegiado: em pouco tempo pode ir da praia ao rio, da floresta ao mangue. Como você define esse povo? Como vive e o que o torna diferente do restante do país?
Para mim é importante essa relação do tempo, do ritmo do lugar, que está fortemente ligado à presença da natureza. Estamos no encontro das águas do rio Guamá com a Baía do Guajará, que banha uma parte das 39 ilhas do município. O dia-a-dia da cidade se assemelha aos de qualquer outra capital, a hora é ditada pelos interesses do capital, mas essa proximidade física com a natureza facilita o envolvimento, uma outra vibração que vem da floresta, do calor, da luz intensa, da forte umidade, dos cheiros, dos mitos e da eterna dança das águas: das marés, das muitas praias de água doce e da chuva. E é bom ter respeito por essa força, para ela não se tornar hostil e devorá-lo. O povo da região tem uma herança étnica que é uma mistura de traços do branco europeu, do negro e, sobretudo, do índio. Com o massacre provocado pelos colonizadores, que desprezaram o conhecimento e as tradições dos habitantes do lugar, ou, quando muito, canalizaram-na para fazer valer os seus interesses, percebe-se que a cultura dessa população se identifica pela mesclagem de conhecimentos construídos no convívio com a natureza do lugar, resquícios da cultura indígena, e de valores impostos pelos colonizadores.

Fale do folclore. Carimbó, lendas. E do artesanato. Cerâmica marajoara.

A origem do folclore, da produção e das manifestações culturais da região tem uma base ampla e rica de nuances, que podem ser observadas, por exemplo, na cerâmica marajoara produzida por uma civilização milenar que habitou o Marajó ou no artesanato indígena que ainda é produzido na região e que, de uma certa forma, inspirou o nosso caboclo na produção de utensílios e embalagens. As lendas mais conhecidas que povoam o imáginario das pessoas da região são a Cobra Norato,  o Boto, a Iara, o Curupira. As danças que acompanham a música e os ritmos típicos da região, como o Carimbó, o Siriá, a Marujada e o Lundu, primam por uma coreografia carregada de sensualidade.

O charme da cozinha paraense são as ervas, raízes e peixes. É bom cozinhar (e comer) em Belém?
Esse é um dos meus “pontos fracos”. Acho que uma cozinha deve reunir ingredientes básicos como o ritual para o preparo, o cheiro, o sabor. Uma coisa que mexa com os sentidos. Essa coisa do tempero, do sabor e do cheiro da cozinha paraense é fantástica. Para completar, existe essa variedade imensa de sabores e cheiros dos frutos regionais: o açaí, o cupuaçu, o muruci, a graviola e o bacuri. São coisas divinas!

Belém está no coração da floresta amazônica. Em meio à maior biodiversidade do mundo, no pulmão do planeta. Como um fotógrafo vê esse espetáculo de cores e formas?
É uma região de muitos apelos visuais, que estimulam qualquer fotógrafo, mas acho que o mais importante está além desse visível. Tudo isso vive, respira, pulsa. Quero dizer que isso se move e é importante que tomemos consciência do significado movimento do ponto de vista holístico. O desafio é como interagir com tudo isso sem destruí-lo ou aprisioná-lo.

Da Redação
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