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Flor das mil formas E-mail
Escrito por Mylton Severiano   

As flores podem ter o tamanho de uma cabeça de alfinete ou mais de 20 centímetros de comprimento. As cores vão do branco ao púrpura-escuro. Das 30 mil espécies registradas, o Brasil abriga 2.500. E, das milhares por descobrir, a maioria deve estar na Amazônia.

Uma coisa é certa. Neste momento, em toda parte do Brasil e do mundo estão acontecendo exposições de orquídeas e encontros de orquidófilos. Planta ornamental alguma exerce tanto fascínio quanto esta da família das orquidáceas, talvez a maior do reino vegetal.

Surgimos no planeta milhares de séculos depois delas: vestígios de fósseis de orquídeas datam de no mínimo 64 milhões de anos atrás. Vem do século 10 a.C. a notícia escrita mais antiga. Belquis, rainha de Sabá (futuro Iêmen), que pensava conquistar Salomão, rei de Israel, levando-lhe um navio de pedrarias, acata o conselho de sua escrava: “Ao rei dos reis, leve um buquê de orquídeas”.

Cinco séculos depois, o filósofo chinês Confúcio a cultiva e escreve num poema que a flor exala “o perfume dos reis”. Mais 200 anos e, no século 3 a.C., encontramos uma referência em Teofrasto, chamado Pai da Botânica, discípulo de Aristóteles: ele menciona o par de bulbos de espécies terrestres das margens do Mediterrâneo. Mas foi o médico grego Dioscórides que no século 1 as batizou de orchys – testículos, alusão a dois bulbos de outra espécie, possivelmente Anacamptis morio. E, se você observar bem, verá que a forma de muitas flores sugerem não só aqueles órgãos sexuais masculinos como também os femininos (elas são em sua maioria hermafroditas). Aliás, Dioscórides usava orquídeas no tratamento de problemas sexuais.

Na era da navegação, as orquídeas chegam à Europa vindas dos trópicos, e o comércio dessas flores toma impulso. Continuamos a cultivá-las pela beleza e pela surpreendente variedade de formas, perfumes e cores – do branco translúcido ao púrpura quase preto da mundialmente celebrada orquídea negra. Os 600 gêneros compreendem até 30 mil espécies, mas o número de híbridos já passa dos 100 mil. Um único fruto pode conter centenas de milhares de sementes. Mais: as espécies se cruzam produzindo híbridos férteis. Que continuam se cruzando. Assim, vamos com calma ao falar em perigo de extinção.

Em sua maioria, são epífitas – se fixam em galhos e troncos, mas não são parasitas, como muitos pensam. A flor em geral tem três sépalas e três pétalas – a do meio, o labelo (pequeno lábio em latim), de colorido mais acentuado, pode ter perfume suave ou forte – até de baunilha e chocolate – para atrair o inseto polinizador e garantir a reprodução da espécie. E nisso elas são mestras.


Poesia vegetal
Branca
Verde-mar
Azul céu
Cor de sangue
Vestida de escarlate
Ornada de ouro
Em forma de espada curva
De labiozinho ondulado
Língua de ametista
Concavidade púrpura
Aberta Perfumada
Encrespada
Encapuzada
De chicote
Nua
Curvada em arco
Em forma de vaso
De lança
De leque
Enfeitada de fitas
Salpicada
Malhada
Ruborizada
De cheiro agradável
Que habita as pedras
Enganadora
Sublime
Digna de amor

Estes versos, traduzidos do latim, são nomes de espécies da família das orquidáceas.


Inglesa apaixonada
Por três décadas, a britânica Margaret Mee percorreu os rios amazônicos, coletando e pintando plantas, especialmente orquídeas e bromélias. Com arte e rigor científico, retratou minuciosamente as espécies.

Margaret veio a São Paulo em 1952 cuidar da irmã, adoentada. Encantada com a Mata Atlântica, que ainda cobria boa parte do Estado, nunca mais saiu do Brasil. Mudou para Belém e, entre 1956 e 1988, fez 15 expedições pela floresta amazônica. Viajava em pequenos barcos com guias, às vezes levava algum amigo, como o paisagista Burle Marx, que a convenceu a fixar-se no Rio em 1968.

Registrou orquídeas que se julgava extintas e descobriu novas espécies – algumas receberam seu nome. De personalidade apaixonada e rebelde, Margaret alertou o mundo para a devastação de nossas florestas. Ela, que enfrentou todo tipo de perigo nas matas, morreria em acidente de carro, aos 79 anos. Um ano depois, em 1989, foi criada a Fundação Botânica Margaret Mee, que apoia novos artistas e biólogos.


Arte de seduzir

Além de exalar perfume, a orquídea usa outros truques para atrair polinizadores. Algumas assumem as formas de fêmeas de insetos e enganam os machos: trocam pólen usando movimentos de acasalamento. Uma espécie do gênero Catasetum, de flor masculina, ao sentir o toque do inseto, lança a mais de um metro um receptáculo de pólen que se agarra às costas dele. A orquídea ama a vida. Uma cápsula pode conter oito milhões de sementes, dependendo da espécie, leves o suficiente para o vento as levar por centenas de quilômetros.


SAIBA MAIS
Flowers of the Amazon Forests, de Margaret Mee (Antique Collecto-UK, 2006).
Margaret’s Mee Amazon, de Margaret Mee (Antique Collecto-UK, 2004).
 

Comentários 

 
#1 tereza azevedo 20-01-2011 15:19
As orquídeas para mim, são as mais belas e delicadas flores. de cheiro delicado ao mais forte. tem para todos os gostos, mais para mim são as mais lindas...
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