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A rota dos tubarões E-mail
Escrito por Joel Rufino dos Santos   

O tráfico enriqueceu os empresários: armadores de navios, fornecedores de instrumentos de tortura e de alimentos (as “carregações”), cotistas das “companhias privilegiadas”, que recebiam monopólios e isenções fiscais de seus governos.


O tráfico negreiro foi um grande negócio globalizado (Europa, África, América). Quem enriqueceu com ele?

Não os marujos. Não os guardas dos fortes espalhados pela costa da Guiné. Não os capitães de barcos. Esses ficavam com as migalhas desse negócio da China. O tráfico enriqueceu os empresários: armadores de navios, fornecedores de instrumentos de tortura e de alimentos (as “carregações”), cotistas das “companhias privilegiadas”, que recebiam monopólios e isenções fiscais de seus governos. Um negreiro que perdesse entre 10 e 20% da carga fazia bom negócio. A travessia do Atlântico era chamada “rota dos tubarões”, imagine o leitor por quê.

O tráfico enriqueceu, também, os estados europeus, através do fisco e das empresas em que tinham participação. Idem as igrejas de Espanha e Portugal, que ganhavam porcentagem por cada negro vendido (sem falar no salário que tinham os padres embarcados).

Na África, quem ganhava?

Muitas pessoas imaginam o tráfico como aventura de malfeitores brancos atrás de árvores para capturar africanos descuidados que iam à fonte. Houve isso, mas apenas no começo (século 16) e final (século 19). A regra foi o escravo vendido por alguém que, com o comércio, ganhava poder e riqueza.

O obá de Benim colecionava binóculos e búzios indianos. Para chegar a seu leito de marfim e baldaquim de seda da Índia, atravessavam-se dezenas de corredores ornados com serpentes, leopardos, guerreiros e divindades ancestrais em bronze. Por esse luxo, entregava aos corretores europeus pelo menos 4 mil escravos por ano. Em 1799, o rei de Portugal recebeu do rei do Daomé (hoje Benim) uma carta:


Sereníssimo Senhor,

como estou acostumado a receber favores muito especiais de V. Alteza, gostaria que V. Alteza me fizesse o favor de me enviar 200 ou 300 barris de pólvora, pelos quais eu farei um bom pagamento em excelentes cativos na própria fortaleza de V. Alteza, Ajudá, o qual bom pagamento me comprometo também a fazer por todas as peças de seda que V. Alteza fará remeter à dita fortaleza, tomando cuidado de não cortá-las; fuzis iguais aos que usam os homens de guerra de V. Alteza, e alguns mais curtos; guarda- sóis maiores que existam e bonitos; e 100 ou 200 dexifarotes (sic), com seus bocais e fundos de prata, que sejam bons e não passem de 3 palmos, e outros mais compridos; e alguns frascos brancos caprichados, grandes e pequenos para conservar bebidas; e algumas galanterias com as quais V. Alteza queira fazer o favor de me honrar; e mais 12 cadeiras e 24 bons chapéus engalanados de prata e ouro; por tudo isto farei bom pagamento em bons escravos à fortaleza de V. Alteza, Deus Guarde V. Alteza.


De V. Alteza, seu irmão

Rei Dagomé.
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