Banner
Mulheres do samba E-mail
Escrito por Jaqueline Ogliari   

Pela voz de célebres cantoras, majestades e musas que imprimem à música suavidade e emoção, o samba se consagrou mais vivo e feminino.

O samba começou como um gênero predominantemente masculino. Lembramos de nomes como Cartola, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Candeia, Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e muitos outros homens que, com suas canções, consolidaram o samba como símbolo de identidade nacional.

Mas grande parte do sucesso desses sambistas coube às vozes inabaláveis de mulheres, intérpretes que revitalizaram o samba com muita suavidade e emoção. Nas casas das tias baianas, nasceu o samba carioca, marcado pelo pandeiro e a batida da faca no prato – foi no quintal de Tia Ciata que nasceu o primeiro samba gravado, Pelo Telephone.

Clementina, Jovelina e Dona Ivone Lara formaram a tríade do samba carioca, vozes legítimas da raiz africana no Brasil. Da melancolia do samba-canção, surgiram as célebres Dalva de Oliveira e Dolores Duran, marcadas pela intensidade ao cantar e viver. Com Nara Leão, Aracy de Almeida e Clara Nunes, o samba arrebatou-se com a força da mulher.

Hoje o samba se faz universal na voz de novas cantoras, que refrescam o nosso gênero mais brasileiro. Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, vamos saudar as divas do samba, que o deixam cada vez mais vivo e feminino.


Com Tia Ciata, nasce o samba carioca

Estudiosos são unânimes ao apontar a casa da Tia Ciata como o berço do samba carioca, ainda no início do século 20. Na célebre Praça Onze, zona portuária do Rio, negros recém-chegados da Bahia batucavam no quintal da mais famosa das tias baianas. A hospitalidade dessa mulher foi a base para que grandes compositores pudessem desenvolver o ritmo carioca.

Com comida boa e rodas regadas a muita música, a casa de Tia Ciata logo se tornou tradicional ponto de encontro, onde se reuniam grandes nomes, como Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô e Heitor dos Prazeres. Numa dessas rodas, Donga e Mauro de Almeida compuseram Pelo Telephone, o primeiro samba gravado na história da música brasileira.

Naquela época, os encontros de samba eram proibidos pela polícia. Mas, para as batucadas na casa de Tia Ciata, os homens da lei faziam vista grossa pela sua fama de curandeira. Segundo registros, Ciata curou uma ferida da perna do presidente Venceslau Brás, que em troca lhe atendeu ao pedido de arrumar um trabalho para o marido: um lugar no gabinete do chefe de polícia.


Raízes do samba brasileiro
Tempos depois, nos idos de 1963, Hermínio Bello de Carvalho descobriu por acaso uma das vozes mais imponentes do samba brasileiro: Clementina de Jesus, com 62 anos de idade. “Me vi diante de algo insólito, único”, descreveu o compositor num papo com o Almanaque em 2007.

Hermínio levou Clementina para participar do espetáculo Rosas de Ouro, e por ele ficou conhecida no Brasil todo. Gravou com Pixinguinha e João da Baiana, e em 1983 foi homenageada com um grande show no Teatro Municipal do Rio. O respeito pela sua voz, raiz da África na música brasileira, lhe rendeu um apelido digno de majestade: Rainha Quelé.

Descoberta tardiamente, assim como Clementina, Jovelina Pérola Negra ajudou a consolidar o pagode, originado a partir do samba tocado nos fundos de quintais. Herdou de Quelé o jeito amarfanhado de cantar, e gravou seu primeiro disco em 1985, Raça Brasileira, conquistando muitos fãs do mundo artístico, como Maria Bethânia e Alcione.

Jovelina integrou o grupo de sambistas anônimos da Império Serrano, assim como Dona Ivone Lara, que na época ainda trabalhava como assistente social. Ambas compartilharam a mesma musicalidade e são consideradas as grandes damas do samba carioca.

Apesar de ter se consagrado só depois de 1965, quando se tornou a primeira mulher a fazer parte da ala dos compositores de uma escola de samba, Dona Ivone já fazia sucesso nas rodas informais. A partir de 1977, dedicou-se por completo à carreira artística.

Em 1980, cantou no palco do Teatro Vila Velha, em Salvador, com Clementina de Jesus. As duas eram tão amigas que chamavam uma a outra de “mana”. Nesse show, cantaram o clássico de Dona Ivone, que Quelé tanto adorava: Sonho meu, sonho meu / Vai buscar quem mora longe...


Divas do samba-canção

O gênero é um tipo de samba, influenciado pelo bolero mexicano e a onda de romantismo que tomava conta das rádios no fim da década de 1930. Expressava principalmente a melancolia por um amor perdido, e foi Lupicínio Rodrigues, um dos grandes compositores do estilo, que inventou o termo que o definiu: dor-de-cotovelo.

O samba-canção também teve suas intérpretes na época de ouro, marcadas pelo canto intenso e arrebatador. Tamanha intensidade deu à Adiléia Silva da Rocha o nome artístico de Dolores Duran, que significa dor sem fim.

Dolores compôs junto com Tom Jobim o samba O Negócio é Amar, que foi interpretada por Nara Leão. Morreu muito jovem, aos 29 anos, vítima de um infarto causado pelas doses excessivas de álcool e cigarro.

Em 1935, Dalva de Oliveira integrou o Trio de Ouro, do qual fazia parte seu marido, Herivelto Martins. Consagrou-se Rainha da Voz pelo canto afinado e belo. Com o fim do casamento com Herivelto, depois de tantas brigas e traições, Dalva assumiu carreira solo.


Do samba pra bossa, da bossa pro samba
A amizade de Noel Rosa e Aracy de Almeida começou entre cervejinhas da Taberna da Glória, em 1933. Lançou-se como intérprete de suas canções e cantava nas rádios cariocas. Em maio de 1937, Noel Rosa morreu aos 26 anos. Aracy gravou em dois álbuns seus sambas inéditos, como Conversa de Botequim e O X do Problema, salvando-os do esquecimento.

Na década de 1950, mudou-se para São Paulo e foi contratada pela Rádio Record, famosa por consagrar grandes vozes brasileiras. Mas, Aracy foi perdendo espaço para a bossa nova, gênero que arrebatava o público com seu novo jeito de cantar samba.

Revelada pelas rádios cariocas, Elizeth Cardoso também se destacou no samba-canção. Cantou com Vicente Celestino, Aracy de Almeida, Noel Rosa, entre outros. Mas fez-se Divina ao ser a primeira cantora da bossa nova, interpretando canções de Vinicius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim.

No caminho inverso, Nara Leão abandonou a bossa nova e foi ao encontro dos sambistas do morro. “Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo”, declarou, numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964.

Nara pôs-se contra a ditadura militar. Queria ser a cantora do povo, e para isso se aproximou de Zé Keti e Nelson Cavaquinho, “os artistas populares genuínos”, como definia. Morreu em 1989, mas sua voz marca gerações até hoje.


Filha de Ogum com Iansã
Clara Nunes começou na carreira artística cantando boleros em Minas Gerais, mas abandonou tudo e foi para o Rio tentar a vida com samba. Estreou com Você Passa e Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, grande sucesso radiofônico.

Viajou à África, representando o Brasil, e converteu-se ao candomblé. Casou-se com Paulo César Pinheiro, que a imortalizou com suas canções: Sou a mineira guerreira / Filha de Ogum com Iansã.

Gravou, em 1970, seu quarto LP, no qual interpretou Ilu Ayê, samba-enredo da Portela, uma das paixões de Clara. Foi uma das cantoras que mais gravou composições dos mestres da Portela. Em 1975, lançou pela Odeon o álbum Claridade, que vendeu mais de 400 mil cópias, desmentindo a máxima de que “mulher não vende disco”.

Clara lutava pela emancipação feminina. "Não tenho medo de nada. Eu sou mulher. Eu sou tudo muito. Sou feminista pela emancipação da mulher. Mas – pelo amor de Deus! – a feminilidade vamos manter."

Morreu jovem, aos 39 anos de idade, em decorrência de uma mal-sucedida cirurgia de varizes. Seu corpo foi velado na quadra da Portela, onde mais de 50 mil pessoas passaram para deixar o último adeus.


Novo samba feminino
Convidada para participar do musical Rainha Quelé, em 2002, Ignez Francisco da Silva volta aos palcos aos 67 anos de idade. Batizada por Hermínio Bello de Carvalho de Dona Inah, a paulista de Araras canta samba desde os 14 anos, mas só com a gravação do primeiro álbum, Divino Samba Meu, conseguiu engrenar a carreira artística.

A partir daí, ganhou reconhecimento como nova revelação do samba. Gravou o segundo álbum com repertório de Eduardo Gudin em 2008, e já prepara o terceiro, como conta em entrevista ao site do Almanaque.

Hoje o samba contemporâneo brilha na voz de novas cantoras, que ganham espaço no cenário musical pelo frescor e muita suavidade. Destaque para Fabiana Cozza, Mariana Aydar, Teresa Cristina, Lucinha Guerra e Roberta Sá, mostrando os muitos matizes desse gênero cada vez mais feminino.


SAIBA MAIS

Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura.
Dona Ivone Lara, por Zélia Duncan, da Coleção Álbum de Retratos.
Clara Nunes: Guerreira da Utopia, de Vagner Fernando.
Veja ao lado vídeos com algumas canções das grandes mulheres do samba.

 









 

Comentários 

 
#3 GRUPO SOM MULHERES 24-08-2011 17:42
www.youtube.com/.../
grupo feminino de samba de ssao paulo da penha
Citar
 
 
#2 GRUPO SOM MULHERES 24-08-2011 17:42
grupo som mulheres um grupo de samba feminino desde 1986 o ex fora de serie que esta com cd grava com pezinho do exalta que esta em espançao e divulgaçao em sp e rio de* www.youtube.com/.../
Citar
 
 
#1 paulo braulino 01-07-2011 06:20
Linda materia! Viva o samba e as Mulheres sambistas brasileiras!
Citar
 

Adicionar comentário

Seus comentários serão moderados e assim que aprovados serão publicados no site.