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109 - Maio
de 2008
Júlio
César de Mello e Souza
Mago
dos numeros
Por
Rafael Capanema

Desde
a infância, ele condenou os métodos de ensino ultrapassados a que
são submetidos nossos alunos. Criou o personagem Malba Tahan, que
fez gerações mergulharem em desafi os matemáticos e na cultura árabe.
Vendeu milhões de livros, traduzidos nos quatro cantos do mundo.
Gênio da educação, mostrou que a Matemática pode – e deve – ser
divertida.
Não
sei como o Julinho vai se sair no exame: escreve mal e é uma negação
em Matemática. O irmão mais velho, João, manifestava preocupação
em carta ao pai. Júlio tinha 10 anos e tentava ingressar no Colégio
Militar, em 1906. Conseguiu. Três anos depois, transferiu-se para
o Colégio Pedro II. Mas, como o irmão temia, não era exatamente
o melhor aluno de Matemática. Em uma prova de Álgebra, tirou dois;
em outra, de Aritmética, cinco. Filho de professores, Júlio César
de Mello e Souza nasceu no Rio a 6 de maio de 1895, mas passou a
maior parte da infância em Queluz, interior paulista.
Esperto,
encontrou uma forma de complementar a mesada que recebia do pai:
venda de redações na escola. Em uma delas, o tema proposto pelo
professor era esperança. “Na nossa turma havia uns sete ou oito
que eram marginais da cola, vadios da pior marca. Pela manhã, depois
do café, vendi quatro Esperanças a 400 réis cada uma! Como mercador
de esperanças o meu êxito, naquele dia, foi espantoso”, escreveu.
Já na infância se opunha aos métodos de ensino de Matemática que
propunham exercícios como este: “Dona Rosinha comprou 5 milésimos
de tonelada de manteiga a 6 cruzeiros cada hectograma. Quanto gastou?”.
“Só um paranóico pediria manteiga assim”, ironizou, já adulto.

ERRE
Não,
Júlio não escrevia mal, muito menos era uma negação em Matemática.
Assim como seus oito irmãos, seguiu a carreira dos pais. Formou-se
no curso de professor primário na Escola Normal do antigo Distrito
Federal e em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, em 1913.
Seu primeiro emprego foi de servente e auxiliar na Biblioteca Nacional.
Aos 17 anos, começou a dar aulas no externato do Colégio Pedro II.
Ainda adolescente, criou a revista Erre, em que defendia o erro
como forma de aprendizado, antecipando conceitos pedagógicos modernos.
Formado em arte dramática, dava aulas performáticas. “O professor
de Matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar
tudo”, atacou. Antes de partir defi nitivamente para a Matemática,
ensinou Física, Geografi a e História. Foi um dos primeiros a adotar
a interdisciplinaridade, promover atividades lúdicas e defender
o uso de máquinas calculadoras em sala de aula. Nunca dava nota
zero. “Por que dar zeros se há tantos números? Dar zero é uma tolice.”
Em 1919, tentou publicar seus contos sobre MateMática no jornal
O Imparcial. Entregou cinco, que foram solenemente ignorados pelo
editor. Tomou-os de volta e os reenviou, desta vez assinados por
R. S. Slade, suposto escritor que era sensação em Nova York. No
dia seguinte, o primeiro texto, A Vingança do Judeu, foi para a
primeira página do jornal, assim como os outros quatro, nas edições
seguintes.
O
CALCULISTA DAS ARÁBIAS

Júlio
estudava desde 1918 a cultura árabe; leu o Alcorão e o Talmude.
Com a experiência bem-sucedida do primeiro pseudônimo, criou um
segundo. Surgia Ali Iezid Izz-Edim Ibn Salim Hank Malba Tahan, viajante
nascido em 1895 na aldeia de Musalith, Pérsia. Teria morrido em
1921, lutando pela liberdade de um povoado da Arábia Central. Os
textos eram traduzidos por Breno de Alencar Bianco, outra invenção
de Júlio. As histórias do misterioso árabe, com instigantes desafi
os matemáticos, começaram a ser publicadas no jornal A Noite a partir
de 1925. A identidade verdadeira só foi revelada em 1933. Júlio
– que nunca esteve no Oriente – chegou a incorporar o personagem
publicamente, trajando vestes árabes típicas. Acrescentou o nome
Malba Tahan à carteira de identidade, com autorização do então presidente
Getúlio Vargas. Publicou 69 livros de contos e 51 de Matemática.
O mais famoso deles, O Homem que Calculava (1932), protagonizado
pelo calculista Beremiz Samir, vendeu cerca de dois milhões de exemplares
no Brasil e já foi traduzido para mais de 12 idiomas. Solidário
com as vítimas da hanseníase, Júlio fundou e editou por 10 anos
a Damião, revista sobre a doença. Apresentou programas de rádio
e tevê, além de ter suas obras adaptadas para o teatro. Estava em
Recife para uma das mais de duas mil palestras que deu quando teve
um ataque cardíaco e morreu, em 18 de junho de 1974. Hoje dá nome
a escolas, bibliotecas e instituições Brasil afora, além de ser
homenageado todos os meses neste ALMANAQUE, na seção O Calculista
das Arábias (ver página 16). Seu aniversário, 6 de maio, virou Dia
Nacional da Matemática. Citando Silêncio de um Minuto, de Noel Rosa,
deixou instruções para que, em seu enterro, ninguém entrasse em
luto: Roupa preta é vaidade / para quem se veste a rigor / O meu
luto é saudade / e a saudade não tem cor.

SAIBA
MAIS
O Homem
que Calculava, de Malba Tahan (Record, 2008). Instituto Malba Tahan:
www.malbatahan.com.br
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