SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
Pai do Chico, raiz do Brasil
Ele passou a maior parte da vida entre livros: “Eles me deram o sentido da história.
São a vida em comprimidos.” Cavou fundo atrás de nossas raízes. Explicou o Brasil.
No fim da vida se definia apenas como “o pai do Chico”.

Sérgio Buarque de Holanda
Quem entrava na biblioteca de 10 mil volumes e milhares de documentos, tinha a impressão de que aquilo ia desabar. Estantes lotadas e outras centenas de obras amontoadas e esparramadas por todos os lados. “Quando arrumam é que me perco”, dizia. Junto com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre; e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, seu livro Raízes do Brasil é obrigatório para os que pretendem entender o País.
Um galo verde embaixo do braço
Nascido no bairro paulistano da Liberdade, a 11 de julho de 1902, Sérgio Buarque de Holanda era filho do professor de farmácia pernambucano Cristóvão Buarque de Holanda. Desde pequeno, gostava de letras: “Comecei a dispô-las em ordem e assim aprendi a ler, sozinho.” Estudou piano e aos nove anos compôs uma valsa, publicada pela revista Tico-Tico.
Aos 19, segue com a família para o Rio. Sérgio vai estudar Direito na Universidade do Brasil em companhia de gente como Afonso Arinos, Prudente de Morais Neto, Ari Barroso e Mário Reis.
Amigo de Mário e Oswald de Andrade, é o representante do modernismo no Rio e correspondente da revista porta-voz do movimento, Klaxon. Irreverente, brincalhão e polemista, andava pela Avenida Rio Branco de monóculo e um galo verde embaixo do braço. Boêmio e erudito, adorava noitadas em companhia de Gilberto Freyre, Prudente de Morais Neto e Manuel Bandeira, bebendo chope e ouvindo Donga e Pixinguinha. Também se envolvia com os amigos em competições sobre literatura inglesa.
“Daremos ao mundo o homem cordial”
Em 1929 Assis Chateaubriand o convida para correspondente de O Jornal em Berlim, onde fica até 1931 como jornalista e crítico literário. Faz cursos na Universidade de Berlim e legendas em português para filmes alemães.
Os estudos na Alemanha acenderam o pavio de sua principal obra, lançada em 1936. Em Raízes do Brasil, está a tese mais famosa de Sérgio Buarque: “… a contribuição brasileira para a civilização será a cordialidade. Daremos ao mundo o homem cordial.” Para evitar leituras superficiais, explicava:
“Não se deve confundir ‘cordialidade’ com ‘boas maneiras’. (…) O ‘homem cordial’ não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez.”
Não acreditava no demônio mas o temia
Supersticioso, nunca permitia que o maço chegasse a 13 cigarros. Jogava um fora. Não vestia marrom. Materialista e não-religioso, tinha medo da morte e do demônio - “não sei por quê”, dizia. Brincava com Vinícius de Morais: o primeiro que morresse contaria para o outro como era “o lado de lá”. Depois que Vinícius morreu, em 1980, Sérgio sonhou com o amigo que, sorrindo, lhe dizia: “Não conto.” Menos de dois anos depois, Sérgio também se foi, a 24 de abril de 1982.
Distraído, emotivo e irônico, Sérgio Buarque lia em seis línguas, cantava tango em alemão e samba em latim. Em suas conversas nunca se sabia onde ia parar: Roma, Estados Unidos, Idade Média ou Brasil Colônia. Foi diretor do Museu Paulista, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, das Universidades de Roma, Harvard, Columbia, Yale e outras. Professor da USP desde 1958, em 1969 requer aposentadoria em solidariedade aos colegas afastados pela ditadura.
Nos anos de 1960 e 70, sua casa é uma das mais movimentadas de São Paulo. Aparecem para festas e conversas os amigos de Sérgio e dos filhos, principalmente dos três cantores - Miúcha, Chico e Cristina. Era um entra-e-sai de Vinícius de Morais, Paulo Vanzolini, Antônio Cândido, João Gilberto, Caetano Veloso, Toquinho e outros. O filho Chico se tornaria mais famoso que ele. No final da vida, o historiador, que dizia “iluminar o presente com o passado, ou vice-versa”, se definia:
“Eu sou apenas o pai do Chico Buarque.”
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“Amigo é aquele que te conhece profundamente e ainda assim te ama.”
Mário Quintana
Tags: Modernismo, Sérgio Buarque



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