Zumbi Era Mortal,
O Ideal, Não.
Dele não se conhece o rosto nem boa parte da vida. Um mito: os escravos diziam que ele era imortal. Sabe-se que lutou por liberdade até o fim, liderando a maior resistência contra a escravidão no continente.
Em 1655, o cura de Porto Calvo, sertão das Alagoas, na capitania de Pernambuco, recebeu de presente “uma cria de escassos dias de existência”, capturada de escravos fugitivos. Resolvido a ficar com o menino, padre Antônio de Melo se afeiçoa a ele. Batiza-o Francisco, talvez em homenagem ao santo de Assis. A criança “mostrou engenho jamais imaginável na raça negra”, dirá o padre. Aos 10 aos sabia latim e “crescia em português muito a contento”. Coroinha, aos 15 anos Francisco desapareceu, despedindo-se com um bilhete que surpreendeu padre Antônio: anunciava sua fuga para um quilombo. Lá se chamaria Zumbi, Rei dos Palmares.
Primeiras Notícias
Em 159, escravos fugidos se instalaram numa serra, a dez quilômetros do atual litoral alagoano. Terra fértil, com muita água e palmeiras, as quais batizaram o lugar: Palmares. De início sofreram poucos ataques, possibilitando grande crescimento.
Em Palmares viviam 20 mil pessoas, a maioria ex-escravos, mas também índios e brancos. Com 27 mil quilômetros quadrados, dividia-se em nove povoados, ou mocambos: Amaro, Arotirene, Tabocas, Dambranbanga, Aqualtene, Subupira, Andalaquituche, outro que teria o nome de Zumbi e Macaco - a capital. Mulheres eram raras. Cada uma, que era a chefe da família, vivia com vários maridos. O rei, Ganga Zumba, tinha três mulheres. Zumbi também teria tido três. Uma delas, Maria Paim, branca, possivelmente raptada em algum ataque a engenho. Com Maria, Zumbi teria tido filhos.
O Estrategista Invisível
O jovem rebelde teve rápida carreira militar. Em 1672, expedição de 600 homens chega para destruir Palmares. Zumbi, com 17 anos, coordena a defesa. Qual velho estrategista, enganaos invasores, dividindo-os, propiciando emboscadas. Comanda ataque fulminante, há desespero e fuga em massa dos portugueses.
A fama se espalha, o mito cresce. Escravos das vilas e cidades dizem que Zumbi é imortal. Ganha o apelido de Sweka, que em Kikongo significa Inquice, entidade sobrenatural que pode tornar a pessoa invisível durante a guerra.
Rei dos Palmares
Depois de vários fracassos, nova expedição, mais bem preparada, atacou o mocambo de Macaco com sucesso, em 1674. 800 palmarinos morreram. Ferido, Ganga Zumba consegue fugir. E aceita negociar Segue até Recife para encontro com o governador. Zumbi rebela-se contra os termos do acordo: só teriam liberdade e terras os que haviam nascido em Palmares. Escravos fugidos teriam de ser devolvidos. Ganga Zumba foge para as terras oferecidas pelo governador. Mais tarde é assassinado. Zumbi é o novo Rei dos Palmares.
“Pelejou Valorosamente”
Zumbi radicaliza. Sabe que não terá mais sossego. Convoca todos os homens para a guerra. Quem desertar será degolado. Foram 14 anos de escaramuças.
No final de 1693 as autoridades contratam Domingos Jorge Velho, “um dos maiores selvagens com quem tenho topado”, dizia o bispo de Pernambuco.
As únicas palavras atribuídas a Zumbi, encontradas em documentos portugueses da época, se referem à batalha contra os 9 mil homens de Jorge Velho. Palmares tinha uma fortificação de madeira de quase 5 quilômetros e meio. À noite, entre 4 e 5 de fevereiro de 1694, o bandeirante construiu uma cerca de 594 metros que acompanhasse a fortificação e protegesse seus homens. De manhã, quando Zumbi viu aquilo, foi profético ao castigar o sentinela:
“E tu deixaste fazer esta cerca aos brancos? Amanhã seremos entrados e mortos; e nossas mulheres e filhos, cativos.”
O quase centenário Quilombo dos Palmares chegaria ao fim. Mas não Zumbi, que, “pequeno de estatura e magro de corpo”, em meio à batalha, fugiu com alguns homens. Em 20 de novembro de 1695, traído por um companheiro, é surpreendido em seu esconderijo. Em carta ao rei de Portugal, o governador de Pernambuco descreve: “Pelejou valorosa ou desesperadamente matando um homem, ferindo outros e não querendo render-se, nem os companheiros, foi preciso matá-los.”
A cabeça do Rei de Palmares ficou exposta em praça pública no Recife. Era preciso provar que não era imortal. Mas seu ideal era.
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“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro.”
Câmara Cascudo
Tags: escravidão, Palmares, Zumbi



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