CARLOS GOMES
(1836 - 1896)
Nobre e selvagem
Nosso maior operista e compositor do século 19 era filho de um músico de banda do interior e gostava de ser chamado simplesmente de Nhô Tonico.

Carlos Gomes
Na estréia de Il Guarany, em 19 de março de 1870, no Teatro Scala de Milão, Carlos Gomes estava encabulado, não queria vir agradecer a ovação do público. Foi preciso arrastá-lo ao palco. A Gazzetta Musicale de Milano fazia o retrato:
“Quando Gomes vai por nossas ruas - sempre só e absorvido em seus pensamentos, dir-se-ia um selvagem transportado por mágica em pleno coração de Milão (…). É um fidalgo: nele, tudo é nobre, mas de uma nobreza toda nua, uma nobreza primitiva, aborígine.”
DE 26 IRMÃOS, O MAIS TALENTOSO
Caipira paulista, meio mulato, meio caboclo, Antônio Carlos Gomes nasceu em 11 de julho de 1836, em Campinas (SP). Filho de Maneco, regente de banda, era o mais talentoso entre 26 irmãos. Em 1859, foge de casa e se matricula no Conservatório de Música do Rio de Janeiro.
Escreve A Noite do Castelo, de 1861, e Joana de Flandres, de 1863. A música era italiana, marcada por Verdi. Mas, na mocidade, Carlos Gomes compôs modinhas, valsas e até uma “dança de negros”. Mas as óperas o levaram a Milão, depois de uma pensão concedida por Pedro II.
MÚSICA ITALIANA, TEMA BRASILEIRO
Na capital mundial da ópera, escreve duas operetas em dialeto lombardo. Abrem-se as portas do La Scala, para Il Guarany, ópera inspirada no romance de José de Alencar. Sucesso estrondoso. Verdi afirma:
“Assisti com grande e viva satisfação à ópera do colega maestro Gomes e posso afirmar-lhe que ela é de excelente feitio e revela uma alma ardente, de um verdadeiro gênio musical.”
Três anos depois, fracasso com Fosca. Em 1874 êxito com Salvator Rosa.
“Fiz O Guarany para os brasileiros, Salvator Rosa para os italianos, e Fosca para os entendidos”, dirá.
Logo ganhou uma fortuna, perdida com a mesma rapidez. Ergueu palacete à beira do Lago de Como. A casa acabou hipotecada e vendida.
Traído, separou-se de Adelina, italiana com quem havia casado. Jogou pertences da mulher pela janela, vendeu 100 garrafas de vinho da adega e fugiu de madrugada com os três filhos.
PARÁ, DE BRAÇOS ABERTOS
No Brasil era recebido como herói. Em 1880 vem montar suas óperas no país. Fogos de artifício no Pão de Açúcar recepcionam o compositor.
Teve os últimos anos de vida dolorosos, na Itália. Dramas familiares, morte de filhos, câncer na língua. Apesar de endividado, por fidelidade a Pedro II recusa pequena fortuna para compor o Hino da República. Doente, quer voltar ao país. Aceita o convite do Conservatório de Belém.
“Não me querem no Sul, morrerei no Norte, que é toda terra brasileira! Amém!”
Despede-se da Europa encenando O Guarani em Lisboa em 1895, um ano antes de morrer.
SAUDADES DO PIRÃO, DA JACA
Carlos Gomes voltava para doce refúgio. Em 5 de fevereiro de 1895, escrevia saudoso e ansioso, pedindo a amigos para preparar “um quitute levado do diabo”. Queria: “paçoca, pirão, cambuquira, (…) quibebe, (…) lambary do Tamanduatahy, canjica, mingao de araruta, içá, cará, mandioca, angu de fubá, garapa, rapadura, pé de muleque, batata doce”. Depois frutas, “ingá, cana assada, jaboticaba (do mato mesmo serve), guaviroba, jambo, pitanga, uvalha (azeda mesmo serve), araçá, banana maçã, jaca”.
No fim do banquete “basta a pinguinha do Mó, paraty e mesmo a cachaça. (…) Depois d’isto só voltando prá casa torrado, na chuva! Mas seriamente! Não se esqueçam do melado e farinha de milho, ouviram? (…) Está dito: ponham tudo na mesa sem faltar nada, pois la vae o Velho Amigo Tonico, chamado Carlos Gomes”.
“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”
Câmara Cascudo
Tags: Carlos Gomes, compositor, Nhô Tonico



Carregando... 

- 2008, Andreato Comunicação e Cultura