Almanaque Brasil


ARY BARROSO

Nasceu e morreu sob o signo da música

{fevereiro de 2002}

Gozador, ranzinza, vaidoso, genial: assim foi Ary, um dos maiores compositores da história. Sua obra-prima, Aquarela do Brasil, é um hino extra-oficial do País.

Ary Barroso

Ary Barroso

O programa se chama Calouros em Des­fi­le. O candidato, nervoso, que­ren­do agra­dar o apresentador, canta:

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus velsos.

A voz rascante e mal-humorada do autor da música interrompe:
“O senhor vai cantar em seus velsos onde quiser. Nos meus versos, aqui, o senhor não canta.”
Era assim Ary Evangelista Resende Bar­ro­so, mineiro de Ubá, nas­ci­do a 7 de no­vem­bro de 1903, autor de No Ta­bu­lei­ro da Baiana, Canta Brasil, No Ran­cho Fun­do, Baixa do Sapateiro, entre tantos clás­si­cos.
Deve ter sido mimado pela avó Gabriela e pela tia Ritinha, que o criaram depois que perdeu os pais aos sete anos. A tia, pi­a­nis­ta do Cine Ideal, fazia fundo mu­si­cal para filmes mudos. Com ela, apren­deu a tocar. Técnica eficiente: o garoto tinha de percorrer o teclado com um pi­res nas cos­tas das mãos. Se caísse o pi­res, Rita o cas­ti­ga­va com vara de mar­me­lo.
Aos 12 anos já se reveza com a tia no Cine Ideal e aos 14 toca Wag­ner, Beethoven e Chopin. Passa a compor aos 15 anos.

Juiz por 15 dias
Em 1921, Ary vai para o Rio estudar Di­rei­to. Leva pequena fortuna: 40 contos de réis, herdados de um tio. O dinheiro só dura até o terceiro ano da faculdade e Ary volta a tocar em cinemas. In­ter­rom­pe o curso e volta a compor. Faz músicas para Olegário Mariano e Luiz Peixoto, que pre­pa­ram o espetáculo de teatro de re­vis­ta La­ran­ja da China.
Retoma os estudos e em 1930 se forma. Ga­nha prêmio num con­cur­so de mar­chi­nhas e casa com Ivone, filha da dona da pensão onde almoçava. Será sua com­pa­nhei­ra da vida inteira. Explicaria anos de­pois:
“Ivone não gosta de futebol, samba ou noite - essa é a razão do sucesso do nos­so casamento.”
Tenta mudar de vida e toma posse como juiz em Nova Resende, Mi­nas. Desiste da car­rei­ra em 15 dias e volta ao Rio. Vira pianista de rádio, continua a fazer música para teatro de revista. Estrelas como Má­rio Reis, Sílvio Caldas, Francisco Alves e Carmen Miranda passam a gravar mú­si­cas dele. Trabalha como locutor esportivo, humorista e apre­sen­ta­dor de programa de calouros.
Narrando futebol, fica famoso com a gai­ti­nha de boca que toca a cada gol e tam­bém por sua descarada torcida pelo Fla­men­go. Com calouros era rigoroso. Em 1937, trabalhando na Rádio Tupi, ins­ti­tuiu o gongo para desclassificar candidatos no programa Calouros em Desfile.

Capricho do destino
Sua obra-prima nasce em noite de chuva. Sem poder sair de casa, vai para o piano. Enquanto mulher e cunhado conversam, nasce um samba. O tom é otimista, para contrabalançar o pessimismo com que o brasileiro vê o País em 1939.
Aquarela do Brasil lhe dá fama in­ter­na­ci­o­nal. Passa a fazer trilhas para filmes ame­ri­ca­nos, apresenta-se nos Estados Uni­dos. Walt Dis­ney o convida para diretor mu­si­cal de seus filmes. Ary agradece, mas não aceita: em Hollywood não tem Fla­men­go.
Nos anos de 1950, liderava a briga con­tra autores do samba-canção abo­le­ra­do. Di­zia que era do “telecoteco”, não do “sam­bo­le­ro”. Tor­ceu o nariz para a bos­sa nova.
No fim da década, sentia-se esquecido. Pensou até em adotar pseu­dô­ni­mo ame­ri­ca­ni­za­do. O boêmio começava a receber sinais da cirrose hepática. O destino que prega peças é o mesmo que providencia homenagens sutis: Ary se foi num do­min­go de carnaval, 9 de fevereiro de 1964, enquanto a escola de samba Império Ser­ra­no desfilava na avenida, tendo por en­re­do Aquarela do Brasil.

Reprodução/AB

“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro.”
Câmara Cascudo

Luiz Henrique Gurgel
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