Militante da vida
Bocaiúva, Minas, 3 de novembro de 1935. O menino nasce frágil. Os pais o registram Herbet, sem o segundo “r” de Herbert, erro do escrivão. Vem ao mundo com hemofilia, predisposição hereditária para sofrer hemorragias. Não podia correr, jogar bola, levar vida de moleque. Para piorar, fica tuberculoso na adolescência. Passa três anos, dos 15 aos 18, isolado do mundo no quartinho do fundo da casa dos pais.
No final da década de 1950, curado, passa a militar na Juventude Estudantil Católica (JEC), depois na Juventude Universitária Católica (JUC). Forma-se sociólogo. Ao lado de outros intelectuais, funda a lendária Ação Popular (AP), organização esquerdista de raízes cristãs.
Com o cerco da ditadura militar se fechando sobre a organização, se vê sozinho. Companheiros mortos. Presos. Torturados. Vai para o exílio no Chile. Com o golpe de Pinochet em 1973, parte para o Panamá. Depois, México.
O irmão do Henfil
Em 1979 o Brasil canta sua volta na voz de Elis Regina: Meu Brasil / que sonha / com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete.
O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, vira hino da anistia. Traz Betinho ao Brasil antes mesmo do desembarque no Rio, em outubro. Era quase desconhecido, ao contrário do irmão, um de nossos mais importantes cartunistas.
Betinho chega com sede de mudança. Em 1981, ao lado do economista Carlos Alberto Afonso, cria a “mãe” de todas as ongs brasileiras: Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), trincheira do ex-defensor da luta armada, que agora reúne intelectuais para estudos multidisciplinares.
Segue enfrentando a hemofilia, doença herdada também pelos irmãos Henfil e Chico Mário. Triste sina. Os três são contaminados pela aids em transfusões de sangue. Betinho não se abala. Luta por ele e por todas as vítimas do mal que surpreendeu o mundo nos anos 1980. Para conter o avanço da doença, funda a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). Chico e Henfil morrem em 1988. Betinho não se entrega.
“Quando se tem o que tenho, você começa a descobrir que a vida é todo dia.”
Moeda da solidariedade
Apesar da evolução da doença, Betinho concentra toda a força na luta por uma sociedade mais justa. Sem filiação partidária, batalha bravamente pela cidadania. “Tem gente que acha que a solução deve vir pela mão do Estado. Eu não acredito nisso. Acredito que as coisas mudam quando a sociedade muda. Aí ela muda o Estado.”
Em 1993 lança a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, um dos mais importantes movimentos do gênero na história do Brasil. Inventa uma espécie de moeda da solidariedade: o quilo de alimento doado. Ganha o prêmio Criança e Paz da Unicef pela luta contra a miséria; é indicado ao Nobel da Paz.
“Nada é maior do que a solidariedade e por ela a gente não agradece, se alegra.”
Em dois anos, plantou 4 mil comitês no País, arrecadando e distribuindo toneladas de alimentos. Mais que isso: espalhou suas idéias por todos os cantos. Com discurso arrebatador, mobilizou empresários, artistas, trabalhadores, estudantes, presidiários, políticos. Lançou as bases de uma nova visão sobre a exclusão social. Virou amuleto cívico.
Morreu numa noite fria do inverno de 1997, antes de completar 62 anos. Mártir de sua frágil vida e da vida dos milhões de excluídos por quem lutou até o fim.
“O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”
Câmara Cascurdo
Tags: Ação Popular, Betinho, Bocaiúva, Ditadura militar, Herbet, Ibase, JEC, JUC



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