Almanaque Brasil


TARSILA DO AMARAL

Caipirinha Vanguardista

{setembro de 2007}

Interiorana e cosmopolita. Paulista de nascimento, ares de européia. Cresce pintora em terra de poetas. Sua obra dá formas e cores a um movimento que toma conta do País. Entre a genialidade de Mário e o ímpeto de Oswald, se impõe. Dá liga ao Modernismo. Suas telas invadem os mais renomados salões do mundo, tornam-se símbolo da vanguarda em nossa pintura.

A menina rabisca na parede uma cesta de palha com uma galinha e sua ninhada. Coisa de criança do interior. A cena, segundo Tarsila, brota “do carinho com que observava a criação ao redor da fazenda onde cresci como um animalzinho livre, ao lado de meus 40 gatos”.
Nasce em 1º de setembro de 1886 na “Terra dos Poetas”, Capivari, interior paulista. Irmã de seis e filha de cafeicultores, convive com o aconchego da fazenda e o agito da capital. Desde menina, ares europeus estimulam seus sentidos: educada por uma professora belga, aos 16 anos vai estudar em Barcelona, na Espanha.

Dos santinhos do colégio faz seu primeiro quadro, Sagrado Coração de Jesus. De volta ao País, casa-se com um primo de sua mãe, em 1906. Apesar de breve, a união rende a única filha que teria, Dulce.

A vida cultural paulistana pulsa. Escreve sonetos para uma revista, tem aulas com artistas do porte de Pedro Alexandrino. Para onde quer que fosse, levava um caderninho. Volta e meia parava no meio do Jardim da Luz para retratar um desconhecido.
Vai para a França estudar com os melhores: a Academia Julian e o ateliê de Émile Renard. Conhece Picasso. Adota leveza no traço, cores menos terrosas que as ensinadas por Alexandrino. Matizes impressionistas e cubistas. Só então se une à geração de 1922, meses depois da famosa Semana.

“Mário era o gênio, lera tudo e não conhecia ninguém. Oswald conhecia a todos e não lera nada”. A “caipirinha paulista vestida por pioret” completava o cenário.

Já encontra a paulicéia em desvario. Forma o Grupo dos Cinco, ao lado de Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Oswald e Mário de Andrade. Promove reuniões quase diárias no seu ateliê para discutir obras e tendências. Alceu Amoroso Lima resume o momento: “Esperava-se alguma coisa. Não se sabia bem o quê. Sentia-se o fim de outras. Era o Modernismo, cuja aurora se anunciava na palidez do horizonte”. Para Sergio Milliet, “Mário era o gênio, lera tudo e não conhecia ninguém. Oswald conhecia a todos e não lera nada”. E a “caipirinha paulista vestida por Poiret” completava o cenário. Comparada à deusa Nêmesis por Mário, casa pela segunda vez, com Oswald de Andrade.

Abaporu, de 1928.

ARTISTA DE 5 MILHÕES DE DÓLARES
Em 1924, uma viagem a Minas promove novas mudanças em suas pinceladas: a mistura do clima pastoril com o barroco das cidades históricas influencia sua fase Pau-Brasil. Drummond chama atenção para seus tons amarelo vivo, rosa violáceo, azul pureza, verde cantante. Tarsila expõe duas vezes em Paris, nas mais importantes galerias. Com a parceria Tarsiwald, ela e Oswald ganham as páginas das revistas modernistas. Em 1928 seu presente para o marido deflagra o Movimento Antropofágico: o Abaporu (antropófago, em tupi). O quadro vira símbolo da vanguarda modernista. Em 1995, a obra é vendida por 1,3 milhão de dólares. É a maior quantia já paga por uma tela brasileira. Sete anos depois, vale 5 milhões de dólares.
Em 1929, ventos contrários abalam as finanças da família e seu casamento com Oswald. Reerguida, expõe até na União Soviética: sua tela O Pescador é vendida por 5 mil rublos. Com a quantia, aproveita para conhecer a região, já que não poderia gastar o dinheiro em outro lugar. Atenta ao drama dos trabalhadores, inicia uma fase mais engajada. Com desenhos e cores mais fortes, produz quadros como O Trabalho e Segunda Classe. Casa-se pela terceira vez em 1933, com o escritor Luis Martins, ao lado de quem viveria 18 anos. Recebe encomendas freqüentes. A partir de 1936 desfila sua prosa em crônicas, nas páginas do Diário de São Paulo - textos sobre arte, música e política.

Morro da Favela, de 1925.

Morro da Favela, de 1925.

Participa de exposições e da Bienal de Veneza. Especialistas chamam atenção para um diferencial: a mistura eficaz de tradições e inovações européias ao caldo cultural brasileiro.

VESTIDO BRANCO
Depois de anos de relativo anonimato, seu nome volta aos jornais na década de 1950. Sua alegria é evidente: Todos estão prometendo ir ao vernissage. Se for a metade, já está ótimo. Estou sentindo que vou trabalhar muito, mesmo durante a exposição. Nas comemorações do IV Centenário de São Paulo, dedica-se longamente à criação do painel Procissão do Santíssimo.
A partir de 1965, é obrigada a usar cadeira de rodas. Ainda assim, sua mão corre à vontade sobre as telas. Há tempo para as últimas mostras: no MAM do Rio de Janeiro e no MAC de São Paulo, em 1969. Dois anos depois, lança seu álbum de gravuras. Morre em decorrência de complicações pós-operatórias, em 17 de janeiro de 1973. Sepultada de vestido branco, como mandava sua vontade, deixou ao poeta Paulo Bonfim as orações finais: “Tarsila não parte. Chega com o futuro”.

SAIBA MAIS
Tarsila: sua obra e seu tempo, de Aracy A. Amaral (Edusp, 2003).

Danilo Ribeiro Gallucci
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