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Em briga de bamba, quem ganha é a capoeira E-mail
Escrito por Jaqueline Ogliari   

Defensores de dois estilos distintos, Mestre Pastinha e Mestre Bimba foram fundamentais para a capoeira sair da marginalidade e virar patrimônio da humanidade.

Difícil o país onde a capoeira não faça sucesso. O “esporte verdadeiramente nacional”, nas palavras de Getúlio Vargas, conquistou adeptos em mais de 150 países, levando a cultura e o ritmo brasileiros mundo afora. Em 2008, o Iphan contemplou com o título de patrimônio cultural imaterial uma arte que por muito tempo era considerada marginal e reprimida pela sociedade.

Como explicar o sucesso da capoeira? Muito de seu prestígio se deve a dois grandes capoeiristas da história, o Mestre Bimba, que morreu a 5 de fevereiro de 1974, em Goiânia, e Mestre Pastinha, que dizia não ter aprendido a arte na escola, mas sim “com a sorte”.

Manuel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, foi um dos responsáveis pela difusão do jogo ao criar uma nova modalidade, a capoeira Regional. O baiano, pouco modesto, dizia fazer “capoeira pro mundo”, e sua técnica foi importante para a legalização da prática.

Já Vicente Ferreira Pastinha defendia a modalidade tradicional, a Angola. Os angoleiros preservam as tradições da capoeira, com mais ginga, dança e movimentos menos agressivos – alguns chamam a Angola de capoeira-mãe por ter surgido nos quilombos na época da escravidão. Lá os escravos tinham que disfarçar sua luta para que os senhores não percebessem que se tratava de uma defesa pessoal.


Caso de polícia
Até 1937, a capoeira era considerada crime previsto no Código Penal da República. Bimba contava que “a polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado”. Os castigos dados aos praticantes era amarrar cada um dos punhos em um cavalo, que eram postos a correr até o quartel. Dizia, inclusive, que “era melhor brigar perto do quartel”, para evitar casos de morte. “Naquele tempo, capoeira era coisa pra malandro.”

Com o governo nacionalista de Vargas, a prática saiu da clandestinidade. Até o governador da Bahia lhe pediu uma exibição. Bimba, motivado, registrou sua escola de capoeira, a primeira reconhecida pela Secretaria da Educação, com o nome de Luta Regional Baiana.

Inspirado no antigo batuque, luta africana na qual seu pai foi um grande campeão, Bimba criou a capoeira Regional acrescentando golpes à capoeira tradicional, hoje denominada Angola, e colocando agilidade aos movimentos e ritmos mais dinâmicos. O baiano desenvolveu o primeiro método de treinamento sistemático, que eliminou a malícia da postura do capoeirista e estabeleceu regras rígidas de conduta e disciplina para os alunos, como não fumar, não beber e praticar os fundamentos todos os dias.


Briga de bamba
Para fazer crescer seu estilo de capoeira, Mestre Bimba desafiou vários outros capoeiristas. Queria testar seu método em outras rodas. Bimba lançava seus novos golpes e deixava em polvorosa os capoeiristas angoleiros, que jogavam a outra vertente, a Angola.

Depois de certo tempo, ninguém queria mais jogar com Bimba. Em 1936, desafiou quatro adversários, vencendo todos em muito pouco tempo: a luta mais longa marcou um minuto e dez segundos, confirmando um apelido do Mestre no bairro onde morava: “Três pancadas”, o máximo que os adversários aguentavam. E a imprensa arrematava: “O Bimba é Bamba”.


Ilustre capoeirista
Enquanto isso, em 1941, Mestre Pastinha fundava, no Largo do Pelourinho, a primeira escola de capoeira Angola legalizada pelo governo baiano. Defendia a tradição e a natureza não violenta do jogo; para ele, a capoeira deveria preservar o “equilíbrio psicofísico”, revelando o talento e a criatividade do capoeirista.

Em 1965, publicou o livro Capoeira Angola, com prefácio do amigo Jorge Amado. Aliás, Pastinha tinha muitos amigos personalidades, como o escultor Mário Cravo e o artista plástico Carybé. Acompanhou uma delegação de artistas e intelectuais brasileiros em viagem inédita à África. Mestre Pastinha ganhou fama de artista, e status de intelectual do povo. O registro ficou além do passaporte: Caetano cantou em Triste Bahia: Pastinha já foi à África / Pra mostrar capoeira do Brasil.


Velhos mestres

Bimba mudou-se para Goiânia para dar aulas na Universidade Federal de Goiânia, onde morreu de derrame em 1974. A pergunta que fica é por que um homem que saiu tão pouco de sua terra natal foi morrer longe dali. “Vim por motivo de finança”, explicou, angustiado, desabafando sobre sua terra natal: “Quer dizer que aqui em Goiânia eu achei mais apoio de que na minha própria terra.”

Apesar de ter morrido na miséria, mais de 20 anos depois a Bahia lhe rendeu homenagens: Mestre Bimba foi outorgado Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, o primeiro mestre de capoeira a ter um título de doutor universitário.

Mestre Pastinha sofreu dois derrames e ficou cego pela catarata; esquecido, foi expulso em 1973 pela Prefeitura de Salvador. Ainda assim, não abandonou seus discípulos até a morte, em 13 de novembro de 1981. Deixou para seus alunos aprendizados de filósofo de capoeira: “capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, mas sim aquele que deixa o corpo ser movimentado pela alma”.


SAIBA MAIS
Mestre Bimba, a capoeira iluminada, documentário de Luiz Fernando Goulart (2007).
Bimba, perfil do mestre, de Raimundo César Alves de Almeida, o Mestre Itapoan.
Mestre Pastinha: Uma Vida de Capoeira, documentário de Antônio Carlos Muricy.
Veja na galeria de vídeos ao lado um trecho do documentário Relíquias da Capoeira, com o desabafo de Mestre Bimba, Pastinha contando histórias de capoeira e a canção Triste Bahia, de Caetano Veloso.

 

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