PINTURAS E PLATIBANDAS
No mês que tem o Dia Nacional da Fotografia (8/1), mostramos o trabalho de Anna Mariani, que dedicou uma vida para revelar a arte de construtores anônimos do Nordeste. Arte que pôs no livro Pinturas e Platibandas e levou a arquiteta Lina Bo Bardi a afirmar:
O Brasil não é só Ocidente, é também África e Oriente
Foi em 1976, numa viagem em busca dos cenários sertanejos percorridos por Antônio Conselheiro, líder do Arraial de Canudos, que as lentes de Anna Mariani se voltaram para as fachadas que enfeitam cidades e vilas nordestinas. Casas simples: pinturas à base de cal sobre paredes de taipa; portas e janelas de tábua. Em qualquer canto do País, pode-se encontrar similares. Mas as cores, formas e motivos que a fotógrafa passou a registrar chamaram atenção para a criatividade e originalidade dos construtores anônimos do Nordeste.
Até então, nenhum pesquisador havia dado importância ao fenômeno que se espalha pela região, seja no litoral, zona da mata, agreste, sertão. Em vilarejos do interior ou nas periferias dos centros urbanos.
Na década de 1980, depois de conhecer o trabalho de Anna, o escritor Ariano Suassuna, exigente observador das expressões populares, se rendeu àquelas fachadas que até então apenas “avistava”. Passou a “vê-las”:
Vi pela primeira vez que as fachadas das pobres casas populares eram, como as roupas vestidas pelos Negros-dançarinos, protestos contra a miséria, a cinzentice, a feiúra, a rotina e a monotonia de suas vidas.
Anna retrata as casas de frente, sem interferência da paisagem ou de pessoas. A escala é sempre a mesma; e sempre se vê, à mesma altura, uma faixa de terra no encontro da fachada com o chão. Simples assim.
O resultado das investidas, no entanto, surpreende. Menos pelo rigor, essencial ao trabalho, mais pelo que Anna encontra no caminho. Ora as fachadas reproduzem as linhas elegantes do art déco; ora lembram o geometrismo colorido do holandês Pieter Mondrian; ora remetem às bandeirinhas de Alfredo Volpi. Será que esses construtores conheciam arte moderna? É provável que não.
Em texto sobre o trabalho, Caetano Veloso chama atenção para o fato:
Os homens que desenvolveram esse estilo visual numa região tão pobre do Brasil nos fazem ver que há muitos níveis insondados, muitos estágios misteriosos nas relações entre as massas e o que se convencionou chamar de modernidade.
O trabalho de uma vida
Desde a infância, os olhos de Anna se encantavam com as fachadas que avistavam pelo interior da Bahia. Mas a menina criada em Salvador escolheu o balé clássico, virou profissional, rodou por palcos europeus. Só começou a fotografar no final dos anos 1960. O trabalho dos retratistas viajantes a fascinava. Pôs os pés nas estradas do sertão nordestino, sempre com filmes preto-e-branco.
A cor só chegou naquela viagem pelas cercanias de Canudos. E, com ela, o trabalho de sua vida. Nos anos seguintes, voltou inúmeras vezes para o interior nordestino.
Enfrentou estradas esburacadas e a poeira da terra seca em ônibus, velhas caminhonetes; travessias em barcaças.
O trabalho, “feito sem intenção definida, de maneira eufórica”, começou a tomar forma em meados dos anos 1980. A essa altura, Anna já tinha registrado mais de mil fachadas. Dessas, 225 foram reunidas no livro Pinturas e Platibandas, lançado durante a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, de 1987. As fotografias se espalharam por três salas da exposição. Rodaram mundo.
Para Anna, o trabalho não estava encerrado. Hoje, a fotógrafa conta cerca de 3 mil fotografias e se prepara para lançar uma edição ampliada do livro, esgotado há anos.
” Estas fachadas sem-eira-nem-beira (sem pátio e sem beiral) continuam, depois de tanto tempo, a me causar espanto e admiração. O longo processo deste trabalho me aproximou do ritmo dos criadores anônimos do Nordeste, que silenciosamente construíram esse instigante momento de beleza.”
“Os desenhos surgiam na hora, junto com as idéias”
Em setembro de 1987, durante a apresentação do trabalho de Anna Mariani na Bienal de São Paulo, a revista Veja visitou alguns lugares retratados pela fotógrafa. Em Bezerros, Pernambuco, a 180 km de Recife, encontrou Manuel Torres da Silva, o Manuel da Vaca.
Aos 87 anos, ele se orgulhava de ter construído, “com as próprias mãos”, 82 casas. Nunca fez um desenho no papel antes de iniciar a pintura: “Essas coisas a gente levantava assim, no olho, e os desenhos iam surgindo na hora, junto com as idéias.”
Uma das obras de seu Manuel, na Rua Princesa Isabel, foi fotografada por Anna cinco anos antes (foto). Diante do repórter, a dona da casa, Maria Severina, confessou: “Eu não me agradava muito da fachada. Mas depois me acostumei. Até terminei gostando.”
Presença na ausência
Anna Mariani escolheu apresentar estas casas sem uma presença viva sequer.
Mas os moradores estão lá. Com certeza estão escondidos numa sombra, ao abrigo do sol - há uma zona de sombra em quase todas as fachadas. Mas sobretudo estão presentes atrás das fachadas, como atrás de máscaras. É por isso que há tanta coerência em todas estas casas, que são como retratos, reflexos exatos de suas necessidades.
Jean Baudrillard, filósofo francês
Cidades endomingadas
Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo Baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo.
A cidade fi ca endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas. É simples: é a alegria de viver, a vontade de ser mais bonito.
Aos olhos do próximo, aos olhos de Deus.
Caetano Veloso, músico
Aspiração à liberdade
Esta documentação não é Folklore, Arquitetura-espontânea, ou Arte Popular. É mais a documentação de uma “aspiração”, de uma tentativa de rejeitar “O Nada da Miséria”. Anna documenta um modo de vida que é uma revolta e uma aspiração à dignidade. O Brasil não é só Ocidente, é também África e Oriente. A poesia não consola da miséria, mas pode ser um marco no caminho da libertação.
Lina Bo Bardi, arquiteta
Tags: Anna Martini, arte, Brasil, casas, fotos, Nordeste, pinturas



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