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109 -
Maio de 2008
O abraço do meu pai
Eu tinha 10 anos quando fiz minha
primeira viagem no caminhão de meu pai, um GMC de 1950. Fomos
de Cruzeiro do Oeste – mais tarde conhecida como a cidade- esconderijo
de José Dirceu durante o regime militar – até Maria Helena, um
vilarejo que na época só se alcançava cortando a fl oresta por
uma picada estreita e cheia de “areião”, que era como meu pai
chamava os trechos da estrada em que o caminhão costumava atolar.
Para mim, garoto que raramente desfrutava da companhia do pai,
aquela viagem foi uma aventura. A floresta densa assustava e encantava.
De vez em quando, viam-se enormes clareiras negras de árvores
outrora verdes e frondosas, agora derrubadas e queimadas para
facilitar a remoção das raízes. Diante de algumas delas, meu pai
desligava o caminhão, olhava com tristeza a queimada, se debruçava
alguns minutos sobre o volante; depois respirava fundo e seguia
viagem. Os sucessivos encalhamentos do GMC nos areiões atrasaram
a viagem, e a noite chegou com seus sons de assustar crianças.
Meu pai, homem franzino, porém muito corajoso, recolhia no mato
galhos e pedras para tentar arrancar o caminhão da areia. Eu ajudava
como podia, atolado de medo. Até que, de repente, meu maior temor
se cristalizou na minha frente: uma onça, parada diante dos faróis
acesos. Ofuscada pela luz, talvez hipnotizada, demorou alguns
segundos para sumir pela fl oresta. Trêmulo, corri para a cabine
e fiquei em silêncio até meu pai se juntar a mim. Avergonhado
pelo medo que senti, não disse nada a ele. Passei o resto da viagem
calado, rememorando a imagem da onça. Foi só quando chegamos ao
destino fi nal que descobri que não estava sozinho naquela lembrança.
Ao estacionar o caminhão, meu pai virou-se para mim e perguntou:
– Filho, você viu a onça? Respondi que sim. Ele sorriu e me abraçou,
com a cumplicidade de quem compartilha um temor. É a única lembrança
que tenho de meu pai me abraçando. E acho que nunca mais me senti
tão protegido assim.
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