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O Céu segundo os índios E-mail
Escrito por Juliana Winkel   

Muito antes de Fernão de Magalhães aparecer por aqui guiado pelas estrelas, os habitantes destas terras já direcionavam suas vidas pelos pontos luminosos do céu. Celebrações religiosas, épocas de plantio e colheita são apenas alguns dos propósitos dos estudos indígenas do firmamento. Para além da função prática, viam também no céu uma cópia de seu próprio mundo.


Em 1997, as obras da usina hidrelétrica de Salto Caxias, no Paraná, revelaram material inusitado. Encravadas na terra, havia gravuras indígenas em baixo-relevo que retratavam o movimento de corpos celestes, provavelmente utilizadas para caça, pesca e agricultura. A descoberta chamou a atenção de especialistas e remeteu a estudos realizados em solo brasileiro séculos antes. “Há grandes semelhanças entre o sistema astronômico utilizado hoje pelos guaranis do sul do Brasil e as medições dos tupinambás do Maranhão, descritas pelo missionário Claude d’Abbeville em 1612″, diz Germano Afonso, especialista em etnoastronomia e pesquisador da Universidade Federal do Paraná. “Isso ocorre apesar das diferenças linguísticas, da distância geográfica e dos quase 400 anos que os separam no tempo.”

Claude d’Abbeville, monge capuchinho francês, esteve no Brasil no século 17 em missões de evangelização junto a aldeias indígenas do Maranhão. Seu relato está em Histoire de la Mission de Pères Capucins en l’Isle de Maragnan et Terres Circonvoisins, publicado em Paris em 1614. Considerada uma das mais importantes fontes de informações sobre a etnia tupi, a obra trazia uma novidade para a época: a relação de aproximadamente 30 estrelas e constelações utilizadas pelos índios para atividades de plantio, pesca, caça e rituais religiosos. Poucos desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos todos por seus nomes próprios, inventados por seus antepassados, descreve.

As semelhanças entre os conhecimentos dos índios coloniais e das aldeias atuais motivaram novas pesquisas junto a etnias indígenas de todo o País. “É possível que as tribos se utilizem desse conhecimento desde que deixaram de ser nômades, como forma de entender e utilizar as flutuações sazonais de clima para sua subsistência”, diz Afonso.


Cópia imperfeita do firmamento
As atividades das tribos indígenas guiam-se, geralmente, por dois tipos principais de constelações. Há aquelas relacionadas ao clima, à fauna e à flora do lugar, conhecidas por toda a comunidade; e outras relacionadas aos espíritos indígenas, mais difíceis de visualizar e conhecidas, normalmente, apenas pelos pajés. No firmamento, encontram mais do que orientação sobre marés e estações do ano: veem um retrato do mundo terrestre. Para agrupar os astros, utilizam elementos de seu próprio cotidiano. Para os pajés, tudo o que existe no céu existe também na Terra. Nosso mundo nada mais é do que uma cópia imperfeita do céu. Assim, cada animal terrestre tem seu correspondente celeste. Isso explica o enorme número de constelações utilizadas. Enquanto a União Astronômica Internacional (UAI) registra um total de 88 constelações, distribuídas nos dois hemisférios terrestres, os indígenas utilizam mais de 100, formadas não só por grupos de estrelas, mas também por manchas escuras e nebulosas que compõem o céu.


Morada dos deuses
Na estrada esbranquiçada da Via Láctea, tribos encontram o principal ponto de referência para as medições celestes. Chamam-na Tapi’i rapé (Caminho da Anta), devido à posição das constelações que a formam. Se para medir fenômenos climáticos as referências são animais terrestres, quando se trata do sagrado a região recebe o nome de Morada dos Deuses. Ali, próxima à constelação do Cisne, está a mancha escura que simboliza Nhanderu, o deus maior guarani. Sentado em um banco, segurando o Sol e a Lua, ele aparece todos os anos para anunciar a primavera.


Grande nação
O tronco étnico tupi, que se desdobra em diversas comunidades, é o que oferece mais dados para o estudo da astronomia entre os índios. Das várias famílias dessa etnia, a tupi-guarani é a mais extensa em número e na distribuição geográfica. Há grupos espalhados por todo o Brasil, assim como na Guiana Francesa, Argentina, Paraguai, Bolívia e Peru.


Algumas das principais constelações indígenas
Algumas constelações observadas pelos índios guaranis estão agrupadas em conjuntos maiores de estrelas. Para acompanhar o clima e o tempo, por exemplo, observam a Ema e o Homem Velho, duas das principais constelações do céu guarani. Um pouco mais sobre elas:

A Ema
Quando surge ao leste no anoitecer, na segunda quinzena de junho, a Ema indica o início do inverno para os índios do sul do Brasil e o começo da estação seca para os do norte. É limitada pela constelação de Escorpião e pelo Cruzeiro do Sul ou Curuxu, que, segundo o mito guarani, segura a cabeça da ave, garantindo a vida na Terra - caso ela se solte, beberá toda a água do nosso planeta. Os tupis-guaranis utilizam o Curuxu para determinar os pontos cardeais, assim como a duração das noites e as estações do ano.

O Homem Velho
Conta o mito guarani que havia um homem casado com uma mulher muito mais jovem do que ele. A esposa ficou interessada pelo cunhado e, para mudar de par, matou o marido, cortando-lhe antes a perna na altura do joelho direito. Os deuses, penalizados, transformaram o homem em constelação. Na segunda quinzena de dezembro o Homem Velho surge ao leste. Assinala o início do verão para os índios do sul e o começo das chuvas para os do norte. Formada pelas constelações de Touro e de Órion, contém três outras constelações indígenas: Eixu (as Plêiades, cujo nome indígena significa “vespeiro”), Tapi’i rainhykã (as Hyades) e Joykexo (o Cinturão de Órion). Para os tupinambás, o ano começa na primeira quinzena de junho, quando Eixu surge no lado oeste, antes do nascer do sol, trazendo com ela também a estação das chuvas.


Sol para o corpo e para o espírito
A vida social e religiosa dos tupis-guaranis é guiada, principalmente, pela presença do Sol. O astro tem um nome espiritual, Nhamandu, diferente do termo usado para denominá-lo no cotidiano, Kuaray. O próprio calendário guarani é ligado à trajetória solar, dividido em tempo novo (primavera e verão) e tempo velho (outono e inverno). O meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano são determinados de acordo com um relógio solar vertical, a exemplo de como faziam povos no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo. A Lua tem também papel importante. Segundo Claude d’Abbeville, os tupinambás atribuem a ela o fluxo e o refluxo do mar e distinguem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova. O movimento do astro influi na caça, nas espécies de peixes disponíveis para pesca, no plantio e no corte de madeira.


Nome escolhido nas estrelas
Os índios se guiam pelo movimento das estrelas também para prever a gestação das crianças da tribo. Com base nas constelações, calculam os nascimentos para a primavera, quando o clima é mais quente e estável. Na etnia guarani, o ritual do batismo (nimongarai ou nheemongarai) também obedece à trajetória dos astros. A cerimônia acontece após a colheita do milho, na época dos tempos novos, que coincidem com os temporais do mês de janeiro. O nome da criança, que atestará sua origem, virá de uma das cinco regiões celestes: zênite, norte, sul, leste ou oeste.


Redescobrindo as trilhas celestes
De acordo com o etnoastrônomo Germano Afonso, ainda é pequeno o conhecimento a respeito dos mitos e lendas indígenas e sua relação com a biodiversidade local. “Esse é um patrimônio que pode se perder em uma ou duas gerações, caso não haja preocupação em estudá-lo e preservá-lo”, afirma. A pesquisa de campo rende frutos. Uma expedição junto à aldeia Tekohaw, no Pará, originou a cartilha infantil O Céu dos Índios Tembé, que levou o Prêmio Jabuti na categoria de melhor livro didático em 2000. Desde 2004, circula também pelo País o Planetário Indígena, projeto itinerante que leva um observatório inflável a escolas e aldeias. Visto por mais de 30 mil pessoas, ele permite localizar as principais constelações indígenas e disseminar o conhecimento ancestral. “Ao mesmo tempo em que ministramos cursos, também resgatamos informações da comunidade”, explica Afonso, também idealizador do projeto. “Muitos membros das tribos veem as constelações no planetário e contam outros nomes para as mesmas estrelas, de etnias diferentes”, conta.

O pesquisador espera que o trabalho do planetário fortaleça também o interesse da comunidade científica nacional pelo tema. “Embora haja diversas pesquisas sobre o assunto fora do Brasil, aqui o resgate histórico ainda é feito por meio de ações isoladas”, diz. “Esperamos que no futuro haja mais informações sobre esses registros ancestrais dentro de nosso próprio País.”


SAIBA MAIS
Etnoastronomia dal Brasile, de Germano Afonso (Le Stelle, Italia, 2004).
Ayvu rapita : textos míticos de los mbyá-guarani del Guairá, de Leon Cadogan (Biblioteca Paraguaya de Antropologia, 1992).

 

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