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Nossa língua mestiça E-mail
Escrito por Rafael Capanema   

A cultura brasileira é craque em incorporar e reprocessar influências. Com a língua não poderia ser diferente. Incontáveis sotaques, palavras, gírias e expressões provenientes dos quatro cantos, temperam nossa salada linguística. No mês em que se comemora o Dia Internacional do Idioma Mãe  (21/2), trazemos recortes da história desse idioma tão nosso, que, como cantou Noel Rosa, é brasileiro, já passou de português.


Olavo Bilac a chamou de "inculta e bela" no célebre soneto Língua Portuguesa. Que é bela, sabemos. Mas inculta? Séculos antes de Cristo, na região do Lácio, atual território italiano, viviam os latinos, povo simples formado em sua maioria por agricultores. Tornaram-se uma das civilizações mais avançadas que o mundo já viu: o Império Romano. Havia lá dois latins: o culto, da política e dos textos; e o vulgar, falado pela população, em sua maioria analfabeta.

Foi essa segunda variante que ganhou o Velho Mundo, levada por soldados e comerciantes. A partir dela, surgiram línguas como o espanhol, o francês e o italiano. O português é a mais recente delas; a "última flor do Lácio", nas palavras de Bilac. O Império Romano, que dominou quase toda a Europa, chegou ao fim no século 5. Nesse período, a Península Ibérica sofreu invasões germânicas e, a partir do século 8, árabes.

Esses últimos permaneceram lá por cerca de 500 anos. O reino portucalense, no território atual de Portugal, expulsou os árabes definitivamente no século 13. Ali, falava-se o galego-português, àquele ponto já marcado por palavras das culturas germânica (coifa, ganso, rico) e árabe (azeite, alfaiate, algarismo).

No século 15, Portugal entrou na era das grandes navegações, e o galego-português deu lugar ao português medieval. No apogeu da história lusitana, palavras portuguesas se espalharam pelo mundo, e a língua sofreu ainda mais influências dos idiomas das regiões conquistadas. A língua portuguesa aportou por aqui em 1500, com a esquadra de Cabral. Desde então, nunca mais foi a mesma, cada vez mais brasileira.


No começo, portugueses adotaram a língua dos índios

Os portugueses encontraram aqui cerca de 1.200 povos indígenas, que falavam nada menos do que mil línguas diferentes. Na costa baiana, travaram contato com os tupis. Fugaz, essa comunicação inicial visava somente facilitar o escambo. A partir de 1530, começaram a chegar expedições de colonização. São Vicente, no litoral paulista, foi a primeira vila, fundada em 1532. Em minoria, os portugueses acabaram adotando o idioma indígena. Com influência lusitana, surgiu uma língua franca, baseada no tupi, conhecida como língua geral paulista.

Durou cerca de dois séculos, tendo sido usado na catequização dos índios pelos padres jesuítas e pelos bandeirantes em suas expedições. Em condições semelhantes, surgiu na Amazônia, no século 17, outro idioma franco: a língua geral amazônica, ou nheengatu (língua boa), com base no tupinambá.

Palavras da língua geral paulista:
Anhembi: rio das anhumas
Uberaba: rio brilhante
Votuverava: morro brilhante
Tucuruvi: gafanhotos verdes

Palavras da língua geral amazônica:
tapioca
açaí
tatu
jacaré
pororoca
cuia
tipoia
peteca
araponga


Africanos de toda parte enriqueceram nossa língua
No século 16, o comércio de açúcar era dos mais lucrativos. Os portugueses passaram a cultivar cana em nossas terras. Como os índios resistiam à escravidão, os colonizadores trouxeram negros da África. A maioria dos que chegaram nesse primeiro período falava línguas bantas, principalmente o quicongo, o quimbundo e o umbundo.

Nos séculos 17 e 18, com a descoberta de jazidas de ouro e diamantes, vieram para cá escravos minas-jejes, falantes de línguas ewé-fon. Na última leva de escravos, no século 19, chegaram povos de origem iorubá, também conhecidos como nagôs, para trabalhos domésticos e urbanos na cidade de Salvador e arredores. O resultado: sons de todos os cantos da África encravados na nossa língua.

Palavras bantas:
bagunça
cachimbo
moleque

Palavras iorubá:

Afoxé
Iemanjá
Ogum

Palavras ewé-fon:

angu
bobó
vodum


Português teve de ser imposto na marra

Com a descoberta de metais preciosos no Brasil, Portugal resolveu, digamos, reforçar os laços com a Colônia. Em 1758, Marquês de Pombal instituiu o português como idioma oficial daqui e proibiu o uso das línguas gerais. Mas idiomas naturais não são extintos a canetadas.

O nheengatu, por exemplo, tem ainda hoje mais de 8 mil falantes. As disputas com a Espanha pelo território no sul do Brasil no século 18 também foram importantes para difundir a língua portuguesa na Colônia. A ameaça espanhola trouxe uma grande leva de colonos lusitanos, que se estabeleceram em locais como a Ilha de Santa Catarina, em 1748, e em Porto Alegre, fundada em 1772.


Diferenças entre português brasileiro e português europeu
Não são só o sotaque e a grafia de algumas palavras que separam o português brasileiro do europeu. No dia a dia, nós e os lusitanos usamos palavras diferentes para expressar os mesmos significados.

Alguns exemplos curiosos:

Português brasileiro
carro conversível
concreto
gol
grampeador
maiô
mamadeira
ônibus
salva-vidas
telefone celular    

Português europeu
carro descapotável
betão
golo
agrafador
fato de banho
biberão
autocarro
nadador-salvador
telemóvel


Com a chegada da Família Real, falar com sotaque português virou chique
Repare: o sotaque carioca muito tem a ver com o lusitano. Basta notar o "s" chiado e as vogais abertas em palavras como "também", características comuns em ambos. Não é por acaso. Junto com a Família Real, chegou em 1808 uma corte numerosa à Cidade Maravilhosa.

O português que se falava no Rio tinha características paulistas, por conta da passagem dos bandeirantes pela região. Mas, com o prestígio da realeza, virou chique falar à moda portuguesa, e houve um fenômeno que especialistas chamam de "relusitanização" da língua.


Imigrantes temperaram nosso caldeirão
O fim da escravidão e a chegada de imigrantes marcaram a segunda metade do século 19. Entre os intelectuais, era forte a influência exercida pela cultura da França. Muitas palavras francesas foram incorporadas ao nosso vocabulário nessa época, como matinê, abajur e batom. Os imigrantes que aqui se estabeleceram a partir da década de 1870 trouxeram em sua bagagem cultural diferentes sotaques, palavras e expressões.

Alemães, italianos, espanhóis, japoneses e árabes se espalharam pelos quatro cantos do Brasil. E dá-lhe palavras e expressões novas: camicase, castanhola, lasanha... Inicialmente restritas às regiões onde os imigrantes se fixaram, muitas dessas contribuições acabaram por ganhar o País. Inspirado pela colônia italiana, o escritor paulista Alexandre Marcondes Machado criou no início do século 20 o personagem Juó Bananére (João Bananeira), que se expressava no dialeto macarrônico, hilária mistura de italiano e português.

A revista de humor O Pirralho publicou alguns de seus textos e paródias, reunidos no livro La Divina Increnca, de 1915. Bananére não perdoou nem clássicos de Gonçalves Dias e Olavo Bilac.

Dialeto Bananére:

Uvi strella
Che scuitá strella, né meia strella! Você stá maluco! e io ti diró intanto, Chi p'ra iscuitalas montas veiz livanto, i vô dá una spiada na gianella

Migna terra
Migna terra tê parm eras, Che ganta inzim a o sabiá. As aves che stó aqui, Tembê tuttos sabi gorgeá

O texto completo de La Divina Increnca está na internet, leia aqui.


Será mió ou pió?
O Modernismo chegou em 1922 com bandeiras como a reafirmação da nossa identidade e a antropofagia das culturas estrangeiras. Oswald de Andrade, um dos líderes do movimento, debruçou-se sobre o tema em alguns de seus poemas, como Vício na fala e Pronominais.

Oswaldianas:
Vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro


Sons do sertão, dos States e da Televisão
A partir dos anos 1930, o País passou a navegar nas ondas do rádio, meio de comunicação de imensa penetração popular. Milhares de brasileiros deixaram o campo e o sertão em direção às grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo, onde crescia a indústria e a construção civil. A cultura do interior nordestino marcou profundamente os grandes centros urbanos, transformando em universais expressões regionais como "vixe", "lascado" e "cabra".

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil de Getúlio alinhou-se aos Estados Unidos. Propagandeando o estilo de vida norte-americano, palavras inglesas bombardearam o País e são até hoje onipresentes. Quando a televisão surgiu, na década de 1950, muitos imaginavam que ela daria cabo às peculiaridades regionais do idioma, uniformizando o português do Oiapoque ao Chuí. Não foi o que aconteceu: os brasileiros parecem capazes de absorver novas influências, cada um à sua maneira.


No novo milênio, gírias urbana e internetês
Se os índios foram os primeiros a influenciar nossa língua portuguesa, as contribuições mais recentes ao idioma vieram de outras tribos. No fim do século 20 e neste início do 21, palavras e expressões de grupos urbanos – skatistas, surfistas, pagodeiros – caíram na boca do povo.

Com a revolução da informática, foram introduzidas ainda mais palavras em inglês (e-mail, site, delete), além de uma nova linguagem escrita, o internetês. Usado principalmente por jovens – e não raro visto com maus olhos – caracteriza-se por abreviações (bjs, tc, blz, abs) e substituições de letras levando em conta a fonética (naum, aki, axo). A língua não para nunca. Vida longa ao gentil português brasileiro, e que venham cada vez mais novos sons.


SAIBA MAIS
Para visitar: Museu da Língua Portuguesa: Estação da Luz - Praça da Luz, s/nº. São Paulo-SP.
Para navegar: Leia aqui sobre a história do português brasileiro
Para ler: O Português no Brasil, de Antônio Houaiss (Revan, 1992)

 

 

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Comentários 

 
#1 Mariana Sarubi 02-03-2011 10:25
Esta página e o seu conteúdo me ajudaram muito em uma pesquisa para um trabalho escolar.Espero que ajude a muitos outros...
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