O personagem desta carta enigmática falava, sem um pingo de constrangimento: “Nunca trabalhei na vida”. Não é inteiramente verdade, mas de fato passou 88 anos desfrutando do que se costuma dizer que o mundo oferece de melhor: belas mulheres, carros luxuosos, viagens de primeira classe. Tornou-se sinônimo de playboy no Brasil.
A fortuna veio da família, fundadora do hotel Copacabana Palace – e mantida por generosas mesadas, que recebeu até a morte do pai, quando já tinha 53 anos. O rapaz gostava de viajar pelo mundo, sempre fazendo amigos milionários e seduzindo beldades. Até Marilyn Monroe entrou para sua lista de conquistas. Sobre a atriz Hedy Lammar, revelou: “Foi uma das únicas namoradas inteligentes que tive”.
Era amante de jazz. Em 1953 escreveu Jazz Panorama, o primeiro livro sobre o gênero no Brasil. Um clássico. Conheceu lendas como Louis Armstrong e Billie Holiday. E assim ia tocando a vida, de forma leve e luxuosa, um autêntico bon vivant. Até que a fortuna começou a se esvair. Não se desesperava: “Dinheiro é algo passageiro”, dizia.
Mais velho – e com a grana zerada –, passou a viver com uma aposentadoria de menos de 2 mil reais e a ajuda de amigos. Não perdia a pose e o bom humor. “Planejei ter dinheiro para gastar até os 80 anos. Estou com 87. Me ferrei.” Com problemas de saúde, uma tarde precisou ser internado às pressas. Deveria passar por uma cirurgia. Negou-se. Exigiu ser levado ao hotel que se tornou sinônimo de sua personalidade, onde morreu numa suíte de luxo em 5 de março de 2004.
{março de 2010}



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