Almanaque Brasil


PEQUENA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO

Do Omniographo ao homem que perdeu a alma

{novembro de 2001}

“Nada se compara ao prazer de assistir a um filme bra­si­lei­ro”, es­cre­veu o crí­ti­co Pau­lo Emílio Salles Go­mes. Em pou­co mais de 100 anos, mesmo so­fren­do con­cor­rên­cia es­tran­gei­ra des­de o iní­cio e forte de­pen­dên­cia es­ta­tal, nosso cinema é re­co­nhe­ci­do mun­do afo­ra e foi premia­do nos prin­ci­pais fes­ti­vais in­ter­na­ci­o­nais. Me­lhor de tudo, o pú­bli­co volta a aplau­dir o novíssimo ci­ne­ma na­ci­o­nal e ­devolve nos­sa auto-es­ti­ma ci­ne­ma­to­grá­fi­ca. Quer ver como foi?

Paschoal Segreto

Paschoal Segreto

1896 - Chega ao Rio o Omniographo, primitivo sistema de projeção, instalado na Rua do Ouvidor.

1897 - Paschoal Segreto e
José Roberto da Cunha Salles inauguram o cine Paris.

1898 - Afonso Segreto, a bordo do navio francês Brésil, realiza a filmagem Fortaleza e Navios de Guerra na Baía da Guanabara.

Década de 1900

Cinematographia Rio Branco, Rio de Janeiro, anos 1910.

Cinematographia Rio Branco, Rio de Janeiro, anos 1910.

Filmes do cotidiano e de pontos importantes do Rio. A partir de 1907, com a inauguração da usina de Ri­bei­rão das Lajes, abre-se mais de uma dezena de salas no Rio e São Paulo. Do­cu­men­tá­ri­os abrem caminho para filmes de ficção.

1907 - Inaugurado o Cine Biju em São Paulo.

1908 - Antônio Leal filma Os Estranguladores, baseado em fato policial. Seguem-se Noivado de Sangue; Um Drama na Tijuca; A Mala Sinistra. A comédia Nhô Anastácio Chegou de Viagem, de Júlio Ferrez, pode ter sido o primeiro filme de ficção.

Década de 1910

Cariocas produzem me­lo­dra­mas, dra­mas his­tó­ri­cos, patrióticos, re­li­gi­o­sos, car­na­va­les­cos, co­mé­di­as - a maior parte na Photo Ci­ne­ma­to­gra­phia Bra­si­lei­ra. A produção cai com a invasão ame­ri­ca­na. Alguns so­bre­vi­vem de ca­va­ção (documentário sob en­co­men­da). Cris­tó­vão Guilherme Auler e Fran­cis­co Ser­ra­dor re­a­li­zam filmes cantados ou fa­la­dos: ar­tis­tas se escondem atrás das telas e acom­pa­nham com a voz a mo­vi­men­ta­ção das ima­gens.

1911 - Fundada a Companhia Cinematográfica Brasileira, dirigida por Francisco Serrador.

1915 - Paulo Benedetti lança os rudimentos do filme sonoro, gravando acompanhamento musical para facilitar o trabalho da orquestra. Surgem fitas inspiradas na literatura.

Década de 1920

A produção se espalha: é o Ci­clo Re­gi­o­nais. Na mineira Ca­ta­gua­ses, o fo­tó­gra­fo ita­li­a­no Pe­dro Comello inicia expe­riên­cias com Hum­ber­to Mauro: Os Três Irmãos (1925) e Na Pri­ma­ve­ra da Vida (1926). Humberto Mau­ro (1897-1983) é nosso pri­mei­ro gran­de ci­ne­as­ta.

1923 - Em Campinas (SP), Amilar Alves ganha prestígio com o drama João da Mata.

1827 - Humberto realiza Tesouro Perdido.

Limite

Limite

1928 - O movimento gaúcho destaca Amor Que Redime, melodrama moralista e sentimental, de Eduardo Abelim e Eugênio Kerrigan.

1929 - Lançado o primeiro filme sonorizado, Acabaram-se os Otários, de Luiz de Barros.

1931 - Mário Peixoto, aos 18 anos, filma Limite, seu único filme, inspirado nas vanguardas européias.

Aurora e Carmen Miranda no filme Alô Alô Carnaval, 1936.

Aurora e Carmen Miranda no filme Alô Alô Carnaval, 1936.

1933 - Surgem filmes com som gravado. Humberto Mauro dirige Ganga Bruta, clássico idolatrado por Glauber Rocha. Carmen Miranda estréia em A Voz do Carnaval.

1935 - Aparecem chanchadas carnavalescas.

Década de 1940

A Atlântida estréia com Mo­le­que Tião, de José Carlos Burle, dan­do o tom: temas bra­si­lei­ros. Logo pre­do­mi­na a chan­cha­da, com bai­xo custo e apelo popular, como Nem San­são Nem Dalila, de Carlos Manga. An­sel­mo Du­ar­te (1920-) é o mai­or galã do cinema na­ci­o­nal.

1941 - Surge a Atlântida.

O Ébrio

O Ébrio

1946 - Regulada lei que determina reserva de mercado nos cinemas, com exibição anual mínima de três filmes brasileiros. O Ébrio, com o cantor Vicente Celestino, é o sucesso da Cinédia.

1949 - Franco Zampari funda a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Paulo.

Década de 1950

A Vera Cruz renega a chanchada, contrata estrangeiros e am­bi­ci­o­na produções aprimoradas. Amácio Mazzaropi (1912-1981) torna-se um dos grandes salários, vivendo o caipira em Jeca Tatu (1959). A ausência de esquema de dis­tri­bui­ção leva Vera Cruz a fechar em 1954. Surge uma es­té­ti­ca nacional. Cineastas se inspiram no neo-realismo ita­li­a­no. Temas expressam uma identidade nacional e lançam a semente do Cinema Novo.

1952 - Adolfo Celi filma Tico-Tico no Fubá. Mazzaropi estréia em
Sai da Frente. Destino em Apuros, de Ernesto Remani, é
o primeiro longa colorido.

Cartaz do filme O Cangaceiro

Cartaz do filme O Cangaceiro

1953 - Lima Barreto lança O Cangaceiro, prêmio de Melhor Aventura em Cannes e maior sucesso da Vera Cruz.

1954 - Carlos Manga realiza
as chanchadas Matar ou Correr e Nem Sansão Nem Dalila.
I Festival Internacional, em SP.

1955 - Nelson Pereira dos Santos inaugura o Cinema Novo com
Rio, 40 Graus e, dois anos depois, lança Rio, Zona Norte.

1959 - Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus, baseado no musical Orfeu da Conceição, de Tom e Vinícius: Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Lançado O Grande Momento, de Roberto Santos, também precursor do Cinema Novo e único representante paulista.

Década de 1960

“Uma câmara na mão e uma idéia na ca­be­ça”: lema de ci­ne­as­tas que se pro­põem re­a­li­zar filmes de autor, ba­ra­tos, com preo­cupações so­ci­ais e en­rai­za­dos na cul­tu­ra bra­si­lei­ra. Te­má­ti­ca rural, como a mi­sé­ria nor­des­ti­na, inaugurada por Nelson Pe­rei­ra dos San­tos. Após o gol­pe de 1964, a abor­da­gem pas­sa à classe média. Com Terra em Transe (1967), de Glau­ber, o Ci­ne­ma Novo adota for­mas ale­gó­ri­cas, para driblar a cen­su­ra. Jo­vens bus­cam nova estética. O Ban­di­do da Luz Ver­me­lha, de Ro­gé­rio Sgan­zer­la, e Matou a Fa­mí­lia e Foi ao Ci­ne­ma, de Jú­lio Bres­sa­ne, são fil­mes-cha­ve da cor­ren­te ali­nha­da com a con­tra­cul­tu­ra e o tro­pi­ca­lis­mo. Dois pau­lis­tas re­pre­sen­tam o ci­ne­ma marginal: Ozual­do Can­dei­as (A Mar­gem) e José Mo­ji­ca Marins, o Zé do Cai­xão (À Meia-noi­te Levarei Sua Alma).

1961 - Glauber filma Barravento, premiado em Karlovy Vary, Tchecoslováquia.

O Pagador de Promessas

O Pagador de Promessas

1962 - Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes por O Pagador de Promessas. Norma Bengell faz o primeiro nu frontal em Os Cafajestes, de Ruy Guerra.

1963 - Nelson Pereira dos Santos realiza Vidas Secas, adaptação da obra de Graciliano Ramos.

1964 - Glauber lança Deus e o Diabo na Terra do Sol, e Walter Hugo Khouri, Noite Vazia. Os Fuzis, de Ruy Guerra, recebe o Urso de Prata em Berlim.

1967 - Luiz Sérgio Person realiza O Caso dos Irmãos Naves, e Glauber, Terra em Transe.
Surge o Festival de Cinema de Brasília. José Mojica Marins populariza o cinema de terror.

1969 - Joaquim Pedro de Andrade adapta Macunaíma, de Mário de Andrade. Criada a Embrafilme, para financiar, co-produzir e distribuir.

Década de 1970

Cartaz do filme Lúcio Flávio O Passageiro da Agonia.

Cartaz do filme Lúcio Flávio O Passageiro da Agonia.

Remanescentes do Cinema Novo ou estreantes, bus­can­do re­fle­tir a nossa realidade e conquistar maior co­mu­ni­ca­ção po­pu­lar, pro­du­zem obras significativas: Leon Hirszman, Eduar­do Escorel, Bruno Barreto, Hector Ba­ben­co, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues. Pedro Rovai e Luís Sérgio Person re­no­vam a comédia de cos­tu­mes, se­gui­dos por Hugo Carvana. A Boca do Lixo pau­lis­ta produz pornochanchadas. Evoluem para fil­mes de sexo ex­plí­ci­to, de vida curta.

1973 - Hugo Carvana inaugura a neochanchada e conquista o Festival de Taormina, Itália, com Vai Trabalhar, Vagabundo. Arnaldo Jabor lança Toda Nudez Será Castigada, adaptação de Nelson Rodrigues: Urso de Prata em Berlim. Surge o Festival de Cinema de Gramado.

1976 - Ruy Guerra recebe Urso de Prata em Berlim por A Queda. Babenco lança Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Cacá Diegues dirige Zezé Mota em Xica da Silva. Lançado Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, maior público do cinema brasileiro:
10,7 milhões de pessoas.

Década de 1980

A abertura política favorece temas an­tes proi­bi­dos. Jan­go e Os Anos JK, de Sílvio Tendler, relatam a história re­cen­te. A retração do pú­bli­co e a atri­bui­ção de prêmios estrangeiros a filmes bra­si­lei­ros alimentam produção vol­ta­da para o exterior. A Embrafilme es­va­zia-se, em 1988, com a criação da Fun­da­ção do Cinema Brasileiro.

Cartaz de Bye Bye Brasil

Cartaz de Bye Bye Brasil

1980 - Babenco lança Pixote - A Lei do Mais Fraco, e Cacá Diegues, Bye, Bye Brasil. Tizuka Yamasaki estréia em Gaijin - Os Caminhos da Liberdade. Glauber lança Idade da Terra, seu último filme. A pornochanchada traz o público de volta, como A Noite das Taras, de David Cardoso.

1981 - Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman: Prêmio do Júri em Veneza.

1984 - Murilo Salles lança Nunca Fomos Tão Felizes, Leopardo de Bronze em Locarno, Suíça. Eduardo Coutinho retoma Cabra Marcado para Morrer, barrado pela ditadura em 1964.

1985 - Marcélia Cartaxo, Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim por A Hora da Estrela, de Suzana Amaral.

1986 - Fernanda Torres, Melhor Atriz em Cannes por Eu Sei Que Vou Te Amar, de Jabor. Ana Beatriz Nogueira, Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim por Vera, de Sérgio Toledo. William Hurt, Oscar de Melhor Ator por O Beijo da Mulher Aranha, de Babenco.

1987 - Volta a crescer o número de cinemas, devido aos shopping centers.

Década de 1990

O fim da Lei Sarney, da Em­bra­fil­me e da reserva de mercado fazem a produção des­pen­car. A tentativa de privatizar a pro­du­ção esbarra na inexistência de pú­bli­co; é forte a con­cor­rên­cia do es­tran­gei­ro, da tv e do ví­deo. Em 1993, outra re­to­ma­da, com no­vos in­cen­ti­vos, pri­va­dos e estatais. A par­ce­ria com a televisão se realiza em Veja Esta Canção, de Cacá Die­gues, produzida pela TV Cul­tu­ra e Ban­co Na­ci­o­nal. Em 1994, des­pon­tam Per­fu­me de Gardênia, de Gui­lher­me de Al­mei­da Pra­do; O Corpo, de José An­tô­nio Garcia; Sábado, de Ugo Gi­or­get­ti; Um Grito de Amor, de Ti­zuka Yamasaki; e O Can­ga­cei­ro, de Carlos Coimbra.

1990 - Fernando Collor extingue a Embrafilme. A produção desaba.

1991 - Babenco roda Brincando nos Campos do Senhor.

Cartaz de Carlota Joaquina.

Cartaz de Carlota Joaquina.

1994 - Sérgio Rezende filma Lamarca, com Paulo Betti. Aprovada a Lei do Audiovisual, sistema de financiamento baseado na renúncia fiscal.

1995 - Carla Camurati lança Carlota Joaquina, retomada do cinema brasileiro.

1996 - O Quatrilho, de Fábio Barreto, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

1997 - O Que é Isso Companheiro, de Bruno Barreto, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Babenco concorre em Cannes com Coração Iluminado.

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, Central do Brasil.

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, Central do Brasil.

1998 - Central do Brasil, de Walter Salles: prêmios de melhor filme e melhor atriz - Fernanda Montenegro - em Berlim; indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Atriz; recebe mais de 40 prêmios.

2001 - Lançado no Rio Grande do Sul Netto Perde Sua Alma, de Tabajara Ruas e Beto Souza: mais de 30 mil espectadores em menos de um mês.

Mylton Severiano e Janaina Abreu
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