Almanaque Brasil


Duas mulheres em pêlo

{março de 2002}

Reprodução/ABSalvo melhor juízo, toda mulher normal tem ne­bu­lo­si­da­des. Nem todo o mundo concorda com isso, claro. Muito ho­mem no bar bota ban­ca, diz que tira mulher de le­tra, que nunca tomou umas can­je­bri­nas a mais para curar cicatriz de paixonite. São super-ho­mens, peito de tungstênio, co­ra­ção blin­da­do. Mas mu­lher é assunto de­li­ca­dís­si­mo, es­pe­ci­aliza­do. E não sou do ramo. Pre­fe­ri­ria mil ve­zes falar de ma­ni­ve­la de au­to­mó­vel e motor de ar­ran­que. Mas va­mos lá.
Há vários tipos dessas criaturas me­lí­flu­as e am­bí­guas. Uns as chamam de anjo do Bem; ou­tros, de anjo do Mal. Uns as con­si­de­ram san­tas; ou­tros as estigmatizam com no­mes im­pu­bli­cá­veis numa re­vis­ta sa­dia como esta. Portanto serei ob­je­ti­vo, sem fi­ru­las. Em pri­mei­ro lugar, aviso que sou a favor de mulher de modo geral. Sei que nesse ponto não sou exa­ta­men­te una­ni­mi­da­de. Acon­te­ce que, por tradição, por for­ma­ção ide­o­ló­gi­ca, por ques­tão de estética, entendo que mu­lher, qual­quer mulher, em es­pe­ci­al se não for muito pe­rua, nem minha che­fe, nem guar­da-no­tur­na, tem meu voto pre­fe­ren­ci­al para qual­quer coisa.
Qualquer coisa, em termos. Não consigo engolir mulher be­que de es­pe­ra jogando futebol feminino. Por favor, não me le­vem a mal. Não me tomem por torcedor corinthiano grosseiro e rude. Aceito e prestigio sem dificuldade juíza de futebol com colar de pérolas, bandeirinha de sutiã, gandula com piercing no um­bi­go. São profissionais que a meu ver ame­ni­zam este vale de lá­gri­mas, independente de opções clubísticas. Fa­ná­ti­co algum teria o cafajestismo de xingar a mãe de uma árbitra do nobre esporte bretão ao apitar um pênalti duvidoso contra seu time. Menos ainda um energúmeno chamaria de “burra, burra” uma téc­ni­ca de futebol que fizesse uma substituição estratégica no de­cor­rer da pugna.
Aliás, pugna é palavra arcaica que tem tudo a ver com o que vou dizer a seguir. Antes, porém, quero insistir num ponto: pra mim não tem esse negócio de que mulher tem de ficar sempre no banco de reserva. Nada disso. Apenas quero dei­xar claro que mulher tem de ocupar os es­pa­ços em igual­da­de de condições com os ho­mens, salvo ra­rís­si­mas exceções. Sou a favor da mu­lher carteira, da mu­lher bor­ra­chei­ra, da mu­lher ma­qui­nis­ta do tren­zi­nho de Cam­pos do Jor­dão, da mulher mo­to­ris­ta da Vi­a­ção Santa Brí­gi­da, da mu­lher po­lí­ti­ca, da mulher pre­si­den­te do Ban­co Cen­tral e, no­ves fora, até pro­va em con­trá­rio, até da mu­lher presidente do Bra­sil. Mas aí, co­le­gas, va­mos com cal­ma. Não bas­ta ser mu­lher para pas­sar Gelol na si­tu­a­ção. Mu­lher, em de­ter­mi­na­dos casos - e com o per­dão da má pa­la­vra - tem de ser ma­cha pra caramba para en­ca­rar os desatinos dos ho­mens. Deu para en­ten­der aonde quero che­gar?
Vamos agora ao que interessa. Sou da ge­ra­ção em que pudor dava ibope. Havia pros­ti­tui­ção, enrubescida, e casas de de­sin­fec­ção, de cara lim­pa, na Itaboca e na Aymorés, ruas que con­fi­na­vam mu­lhe­res cha­ma­das de má-vida. Ou vida-fácil, o que era a mesma coisa. O pai, médico, de um senhor que depois subiria como busca-pé na política nacional, en­ri­que­cia re­cei­tan­do la­va­gens pro­fi­lá­ti­cas. Havia rendez-vous si­len­ci­o­sos, acoi­ta­dos. E tam­bém gigolôs e co­lom­bi­nas. Mas tudo pun­do­no­ro­sa­men­te dis­cre­to e dis­si­mu­la­do.
Por essa época vim a conhecer, de vista, as duas primeiras mu­lhe­res nuas da minha vida. As Graças. De bronze, em ta­ma­nho mais que na­tu­ral, as duas estátuas tinham sido es­cul­pi­das pelo Victor Brecheret. Per­ma­ne­ci­am em pêlo, es­tá­ti­cas, em nu fron­tal, adornavam a Galeria Pres­tes Maia. Os moleques, tipo eu, passavam reto por elas, fingindo com o canto dos olhos não ver suas vergonhas. Um dia se­qües­tra­ram as duas mulheres brôn­ze­as num museu grã-fino da ci­da­de. Ficaram ali uma tem­po­ra­da. Estão agora de volta. Mantêm o sutil sorriso malicioso nos lá­bi­os metálicos. Pa­re­cem continuar fiéis e invioladas. Creio que são as mu­lhe­res públicas desnudas mais pudicas na cidade. Mas, olhadas bem, de frente, têm suas nebulosidades.

Lourenço Diaféria
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