2 DE JUNHO É O DIA DA COMUNIDADE ITALIANA EM SÃO PAULO
Da alegria de ser sincero
Com total respeito à glória dos brasões heráldicos, que, é claro, merecem consideração até mesmo em velórios, a Comunidade Italiana brasileira, logo também a paulista, foi sempre digna, simpática, cordial. Reparem que não estou jogando confetes nem elogios à toa, como apreciador de pizzas e foccàcias - que sou -, ou admirador fanático dum Tito Schipa ou, quiçá, de um palestrino bajulador.
Ao contrário, sou muito franco; na minha maneira simples de abrir o jogo, reconheço-me imediatamente um autêntico corinthiano, com tê e agá, calejado e vacinado contra intempéries da vida. Todavia, é justo e cortês informar que há no calendário uma data para enaltecer as italianas e os italianos que porventura ou destino tenham escolhido o Brasil para viver, convolar núpcias, criar famílias ou simplesmente misturar sonhos, ambições e ilusões.
Antes, convém ir por partes: quando se costuma mencionar a palavra Comunidade (repito, com letra maiúscula), logo vem a idéia de comunhão. Na realidade, comunidade não é exatamente uma colônia, um bando, um agrupamento, uma turma. Uma colônia de formigas, de cupins ou de louva-deuses por si só não são comunidades. Comunidade tem que, antes de mais nada, imbuir-se de sentimentos meritórios e edificantes.
Ignoro se rigorosa e tecnicamente estou certo. Acontece que na prática da vida tenho visto algumas pequenas coisas. Por exemplo: acredito que muitas pessoas, a maioria, incluindo italianos que por casualidade tenham passado diante do terreno hoje transformado em banal estacionamento de automóveis na histórica Avenida Paulista, nem sequer imaginem que ali, naquele território que já foi sagrado, ergueu-se há pouco mais de meio século a mansão que pertenceu à família Matarazzo.
Quem foi o conde Matarazzo? Foi o empresário italiano baixinho do qual se contaram tantas lendas e realidades, cuja saga envolvia impérios de trabalho e imaginações. Francisco Matarazzo foi isso e muito mais. Era um senhor rico, riquíssimo, podre de rico, um magnata - como se anunciava - mas que dispensava guardas de segurança e cordões de isolamento ao descer após a missa dominical as escadas da igreja de Nossa Senhora da Paz, no vetusto bairro do Glicério. Bem verdade que, então, os jornais finos e comedidos enchiam menos espaço tratando de assaltos e sobressaltos. A cidade era mais tranqüila. Podia-se fumar charutos, charutinhos e cigarros de palha nas calçadas. Os bondes da São Paulo Railway, ainda que trepidantes, aguardavam estacionar no ponto antes de alguém saltar com o veículo em movimento e estatelar-se nos macacos das vias públicas.
Em suma, havia clima e climas para existirem na terra paulistana e adjacências comunidades florescentes. A palavra “italianada” deixava de ser um termo depreciativo para dar novas tonalidades
às cores da cidade. A Comunidade Italiana tornava-se palpitante. Mudava-se de paisagem, não de alma. Ao misturar destinos, o idioma dos imigrantes que chegavam transformava-se em jocosos sotaques. E a face das garotas, sempre mais belas, somente com o tempo passaria a usar maquiagem.
Tags: colônia, comunidade, imigração, italiano



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