Almanaque Brasil


Bermudes, Clotilde, Tomás e o Fradinho

{julho de 2005}

Uma pessoa incrédula pode ser simplesmente desconfiada. Olha os fatos com um pé na frente e outro atrás, não gosta de pôr a mão em cumbuca, não se deixa embair fácil por certas vantagens. Dificilmente compra bilhete “premiado” que o vigarista deixa cair no chão.
Evidente que o incrédulo, por excesso de incredulidade, deixa de acreditar em certezas evidentes. Estou me lembrando do Bermudes, o grande Bermudes. Era chamado de grande não pela estatura. Na verdade ficava abaixo da média, o que lhe valeu dispensa de servir por “excesso de contingente” no antigo 4º Regimento do Exército.
Grande, enorme, no Bermudes, era o nariz. Não exatamente um nariz; era uma lapa. Bermudes odiava seu nariz. Tinha a tentação de arrancá-lo à força, como se arrancasse um dente. Mas ficar sem nariz não lhe parecia moderno nem estético.
Apesar do nariz, Clotilde Luísa, bela, prendada, doceira, culta, professora de sânscrito e virgem, nutria por Bermudes paixão que estava prestes a completar bodas de vidro. Adorava o Bermudes, incluindo o nariz, que lhe parecia burilado para um casamento equilibrado. Várias vezes manifestou as intenções de seu coração meigo. Oferecia a Bermudes ovos-moles, bombons com licor, pudim de clara e quebra-queixo caseiros, acompanhados de bilhetes derramados de lirismo, sem cacófatos. Chegou ao extremo de garantir a Bermudes lazer completo, sem o dever de trabalhar durante a vida conjugal. Clotilde Luísa se encarregaria da manutenção do doce lar.
Porém, havia o nariz. Bermudes não acreditava que alguém com aquele promontório fisionômico fosse capaz de atrair o amor da ninfa que o desejava. Era um incrédulo. Escravo do nariz acintoso, recusou a ternura e a perspectiva de viver sem trabalhar. Morreu solteiríssimo. Em seu velório, compareceram Clotilde Luísa e seu marido, abastado fazendeiro com o qual a senhora Clotilde Luísa dos Passos Moreira, desiludida do primeiro e inesquecível amor, viera a convolar núpcias, as quais os enriqueceram com quatro filhos e oito netos.
Esse é apenas um exemplo dos malefícios da incredulidade, quando vem a superar a confiança. Não obstante, quanta gente inteligente continua incrédula, pondo em dúvida verdades sensatas como a existência de lobisomens, mulas-sem-cabeça, boitatás, abantesmas, sacis-pererês e programas de prêmios na televisão! Claro, os incrédulos existem. Vão continuar a existir até o fim dos tempos. Se bem que há incrédulos que duvidam que um dia o mundo irá acabar. Não se surpreendam, porém, se ao abrir a janela do quarto de dormir descobrirem que não há mais janela, nem quarto, nem telhado, nem paisagem, nem sibipirunas, nem pássaros. Menos ainda café-da-manhã.
Não por acaso, recordo um episódio que se conta do dominicano Tomás de Aquino, santo famosíssimo, autor da monumental Suma Teológica, que estuda a existência de Deus no universo. Tomás viveu na Idade Média. Morreu na segunda metade de 1200. Certa manhã estava lá absorvido em seus estudos, entra afobado no cubículo um discípulo, aos gritos:
“Frei Aquino, depressa! Corra para ver um elefante voando!”
Tomás, gordo, pesadão, larga livros, papéis e anotações. Chega ao janelão, olha o firmamento. Nada de elefante. Sem graça, encara o companheiro, que ri da brincadeira:
“Bom mestre Tomás! O senhor acredita mesmo que elefante voa? Não percebeu que era pegadinha?”
Tomás de Aquino, sério:
“Julguei que fosse mais normal um elefante voar de verdade do que um jovem noviço inventar uma mentira para divertir-se enganando pessoas.”

03/07 é o Dia dos Incrédulos

Lourenço Diaféria
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