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109 - Maio de 2008
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DE MAIO É O DIA DO SILÊNCIO

A
TRANQÜILIDADE DO SILÊNCIO
Por
Lourenço Diaféria
Como
já contei, nasci e passei boa parte de minha infância,
que não foi gloriosa nem fagueira, às margens de uma
ferrovia. Além dos trens que preenchiam o tempo ocioso e
poderiam dar a impressão errada de que o tempo era feito
de minutos casuais, sempre tive a certeza de que as autoridades
mais importantes do País viajavam de trem. O que, aliás,
era normal, necessário e comum. Do ponto de vista técnico,
como agora me ocorre, o progresso, pelo menos o urbano, era feito
com e sobre trilhos de aço. Jamais me passava pela cabeça
que algum dia, no futuro, os trilhos seriam substituídos
por qualquer outro material. Da mesma forma, os trens. Sem pretender
me distrair, gostaria de relembrar que foi o progresso que aos poucos
marcou a civilização com o barulho. Como curiosidade,
no calendário não existe homenagem ao barulho. O que
existe é uma data especial para o silêncio. O silêncio
significa civilização. A primeira vez que percebi
o silêncio como integrante dos direitos da humanidade foi
exatamente na minha primeira infância, quando eu ainda não
sabia o que fosse direito de nenhuma espécie, não
supunha o que fosse humanidade, nem me preocupava com questões
fluidas da vida. Na rua em que eu morava havia um empório
pequeno de estoque reduzido composto de algumas latarias e minguados
sacos de cereais. Não lembro o nome do proprietário,
nem tenho a menor noção se, tanto tempo depois, ainda
viva. Até porque o empório de secos e molhados cerrou
a porta de ferro ondulado, saiu do bairro, nunca mais se ouviu falar
dele. No pretérito empório existia uma gaiola de arame
na qual se equilibrava um periquito amarelo, ao que tudo indicava
acostumado com a rotina sem graça da rua.
Ocorre que numa indeterminada manhã, como era costume, o
proprietário do estabelecimento deu moleza e, ao abrir a
gaiola para colocar alpiste e trocar a água, esqueceu-se
de fechar a portinha. Foi o suficiente para o periquito cair fora.
A princípio pousou numa prateleira. Depois foi além
e mudou definitivamente de endereço. O dono do empório
não se perdoou. Após tentar recuperar a ave, começou
a dar murros na própria cabeça, chorando como criança.
O empório jamais voltou a ser o mesmo. Sem o periquito amarelo,
perdeu a graça e a atenção dos fregueses que
passaram a procurar estabelecimentos melhor estocados. Como deixei
claro, minha infância transcorreu num bairro margeado por
linhas férreas. Ao lado da estrada ferroviária funcionavam
oficinas que montavam e desmontavam locomotivas e vagões.
Entre apitos e alaridos, não havia, a rigor, sossego. Com
exceção da hora do almoço. Não era hábito
fornecer refeições em refeitórios, como ocorre
agora. Os operários traziam marmitas de casa. E comiam na
rua, saboreando a meia hora de folga diária. Encostados na
parte externa do muro da rua, era um hiato de liberdade em que o
barulho dava um tempo para o silêncio do almoço. Muitas
e muitas vezes saboreei com a imaginação os temperos
das marmitas dos operários, que, de resto, eram especializados.
Alguém pode supor e dizer que arroz, feijão, ovo frito,
chuchu e um naco de lingüiça fossem uma refeição
saborosamente proletária. Não precisava ser tanto.
Bastava que o silêncio tivesse tranqüilidade.
Texto
por Lourenço Diaféria,
especial para o ALMANAQUE BRASIL |