Almanaque Brasil


Diamante negro de Igarapé-Miri para o mundo

{agosto de 2005}
Açaí: em Igarapé-miri, no Pará, a maior produção mundial do fruto.

Açaí: em Igarapé-miri, no Pará, a maior produção mundial do fruto.


Riqueza vegetal abundante no município paraense, o açaí sempre criou alguma renda. Mas era pouco valorizado. Com incentivo, virou produto lucrativo para as comunidades ribeirinhas.

Cooperada colhe Açaí em Nazarezinho.

Embalagem de Açaí.

Raimundinha (à direita): "Temos de acreditar no nosso trabalho."

Aparaense Igarapé-Miri, a 130 quilômetros de Belém, abriga a maior produção mundial de açaí. Por onde a gente anda, vê as palmeiras na paisagem. Saem diariamente 300 toneladas do fruto. Mas ainda não é possível ver na cidade o retorno de tanta riqueza. Dos 58 mil habitantes, cerca de 30 mil (54%) vivem nas comunidades ribeirinhas, em palafitas, a maioria sem energia elétrica. Vida simples. Na cidade, os problemas são maiores: desemprego, violência, falta de estrutura.
Tanta dificuldade e tanto potencial. Em 1996, comunidades passaram a se organizar, criaram associações, fizeram reuniões e decidiram explorar melhor os açaizais. A ação ganhou muitos braços: de um lado, o incentivo do governo municipal e do federal; de outro, a Universidade Federal do Pará (UFPA), que encomendou aos técnicos diagnóstico das necessidades comunitárias. Início de investimento no desenvolvimento sustentável da região.
O resultado alcançado revelou que o principal problema da população de Igarapé-Miri era a quantidade de açaí colhido. Durante anos, as comunidades colhiam e vendiam a preço baixo; pouca procura para muita produção. Ribeirinhos chegavam a voltar do porto e jogar fora toda a colheita.

União traz resultados
Em 1999, com o apoio do Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (Poema), comunidades mirienses formaram uma cooperativa de colheita de açaí. A intenção era unir os ribeirinhos com o objetivo de garantir a compra da produção por melhor preço. A Cooperativa Agroindustrial de Trabalhadores e Produtores Rurais de Igarapé-Miri
(Coopfruit) deu um salto em 2001.Conseguiu incentivo para montar fábrica de processamento de açaí, produção e congelamento de polpa.
Com investimento da Fundação Banco do Brasil, em 2004 a cooperativa recebeu maquinaria nova, para lavar, selecionar, despolpar, refinar, pasteurizar, embalar e estocar. Além disso, a polpa do açaí já sai da fábrica com a embalagem do comprador, o que valoriza ainda mais o produto. O consultor na área de pesquisa e produção de açaí da Embrapa, Raimundo Frazão, diz:
“Esse equipamento que temos é um dos melhores da região, nem em Belém existe tão alta tecnologia.”
Durante a safra, são produzidas 4 toneladas e meia de polpa por hora. De uma ponta a outra, tudo é bem organizado. Hoje, os ribeirinhos nem precisam sair de casa para levar açaí ao porto da cidade. Diariamente, colhem o fruto; e, em cada uma das
17 comunidades, elegem um coordenador responsável que retira dos 277 cooperados as rasas [alqueires] de açaí. Entregam na fábrica da cooperativa e recebem no ato o dinheiro. Diz Pedro Cardoso, da Associação de Moradores e Produtores Rurais de Nazarezinho do Meruú:
“Hoje o açaí não falha, as pessoas se dedicam ao cultivo, o preço está equilibrado. Era um sacrifício, hoje dá para guardar um dinheiro.”

Austrália, Suíça, Estados Unidos
Atualmente, o preço da cooperativa é fixado: em média, 6 reais por lata de 14 quilos. Antes, o preço não chegava a 1 real. E os ribeirinhos agora têm garantia de que venderão todo o açaí colhido. A produção da fábrica não pára; 50 funcionários se revezam nas máquinas para dar conta do trabalho. De lá sai o açaí congelado e embalado para todos os Estados brasileiros, e Austrália, Suíça, Estados Unidos.
A sensação do momento, que bate recorde de vendas, é a combinação de açaí com guaraná, banana, mel ou acerola feita já nas máquinas da cooperativa. Esses energéticos, ricos em cálcio, ferro, proteínas e vitamina C, têm feito sucesso Brasil afora e são requisitados também no exterior.
A cooperativa tem investido ainda na qualidade. Ministra cursos de formação para todos os cooperados, em parceria com a UFPA, o Poema e órgãos governamentais. Preocupa-se com os açaizais; o manejo consiste em cortar os coqueiros mais altos e deixar os menores crescer, o que aumenta a produção. O objetivo é diminuir cada vez mais o período da entressafra. Hoje, quase não há intervalo, graças a esse cuidado.
Outras medidas contribuem para a qualidade do açaí da cooperativa: uso de luvas, lonas; e, para o corte, seleção dos cachos mais maduros - totalmente pretos. As iniciativas trazem benefício para as comunidades e aumentam ainda mais o valor do açaí miriense:
“É o nosso diamante negro”, define Antônio Braga de Oliveira, de Nazarezinho.


E para as mulheres, nada? Tudo!
Uma comunidade que participa do projeto é a Associação de Mulheres de Igarapé-Miri. Com 234 sócias, surgiu com o objetivo de ajudar as mulheres da região a tirar documentos e lutar pelos próprios direitos:
“Temos de nos preparar para fazer a nossa parte”, alerta Raimunda da Costa Almeida, a Raimundinha, uma das fundadoras. “Temos de acreditar no nosso trabalho.”
Desde 2003, 27 mulheres participam, e pretendem aumentar esse número. Muitas sofreram preconceito dos maridos: eles achavam que não ia dar certo.
“No começo, ele não gostava que eu saísse, mas agora mudou porque viu que deu certo”, lembra Odiléia Correia Lobo, a Vanda, da região de Furo do Seco Dentro.
Para muitas dessas mulheres, a discussão do movimento foi o que de mais importante aconteceu na vida delas, porque desenvolveu um lado forte que não conheciam. A Associação de Mulheres é uma das mais organizadas. Tem balança própria, que pesa o açaí na casa de cada uma, e o leva até o porto, onde outras cooperadas o transportam e entregam na fábrica.
O açaí é a principal matéria-prima da associação, mas a habilidade para fazer o artesanato é outra opção durante a entressafra. Prova de que ainda há produtos nativos ricos em oportunidades na região.

Periscópio
Das comunidades para as telas

A Fundação Banco do Brasil, em parceria com a TV Câmara, apresenta a série de documentários Brasileiros. O projeto tem como objetivo mostrar histórias de pessoas que, com tecnologias simples e força de vontade, transformaram suas vidas e as de suas comunidades.
O primeiro episódio conta a história dos habitantes de Riacho Fundo II e Recanto das Emas, em Brasília. Mais de 100 famílias que formaram cooperativa de coleta e reciclagem de lixo mostram as mudanças na qualidade de vida com a criação do projeto.
O segundo episódio, que vai ao ar em agosto, retrata o sistema Mandalla de Produção Permacultural, projeto inovador de irrigação que ganhou o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social e será reaplicado em diversos Estados brasileiros.
Horários de exibição em www.fundacaobancodobrasil.org.br.

Mariana Proença
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